Contos e Crônicas - André Carretoni

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Contos e Crônicas

Nota:
Há erros gramaticais e  estilísticos aqui com mais de 10 anos. Sejam compreensíveis. Faz parte.

 
 
 
Basquiat

- No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra era quadrada, branca e vazia; e havia um estúdio sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das tintas. Disse Deus: haja cor. E fez-se cor. Viu Deus que a cor era boa; e fez separação entre as cores com um prisma. E Deus me chamou de mulher, e você de homem. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.

- Por que ele começou com você? – o homem perguntou.

- Porque eu estava do lado esquerdo da tela. – a mulher respondeu.

- Você ainda não estava aí. O lado esquerdo estava vazio, e ele resolveu pintá-la antes de mim.

- Eu já estava aqui muito antes do início. Ele me imaginara primeiro antes de ter começado a nos pintar, não você.

- Vocês estão tendo um caso!

Jean Basquiat largou o garrote no chão e fechou os olhos. Não conseguiria segurar mais nenhuma cor. Não poderia nem mais separar a obra do criador.

Como havia chegado ali? Quem um dia teria imaginado que aquele bebê criado com tanto amor um dia teria sua foto estampada dentro de uma Larousse? Quem havia despejado tanta tinta sobre sua cabeça naquela pia batismal? Substantivos e adjetivos deram lugar a números, e sua própria vida foi experimentada ao extremo.

"Warhol."

Como havia chegado ali? Quem o havia chicoteado com um pincel durante a sua infância? Quando havia perdido, enfim, o medo da claridade?

Basquiat se sentou na beirada do sofá, abriu os olhos e contemplou o infinito.

Prisma. Tudo.

O homem e a mulher pararam de discutir e olharam para ele, à espera. Será que ele os daria, afinal, por terminados? Era um exercício constante em suas vidas, imaginar se estavam ou não prontos.

Ao menos já se consideravam belos.

Dou outro gole no vinho e fico com vontade de apagar este texto. Não tenho certeza de que esteja bom. Talvez seja melhor começar do zero. Talvez seja melhor escrever sobre um quadro da Norah Borges.

- Não faça isso! – o homem grita.

Jean Basquiat arregala os olhos e olha para seus dois personagens.

- Quem disse isso? – ele pergunta, com voz melosa.

- Eu! – o homem responde.

- Que isso... – Basquiat diz.

- Queira me desculpar. Não estava a falar com você, estava a falar com o escritor.

- Como? – paro de digitar e levanto as mãos.

- Você não pode fazer isso! – o homem insiste, e Basquiat e a mulher me encararam também.

Dou outro gole no meu vinho e olho para os lados.

“Que porra é essa. Claro que posso.”

- Não! Não pode! – desta vez foi a mulher a gritar.

- Então eles podem ler meus pensamentos? – murmuro.

- Claro que podemos!

Solto um suspiro.

- Vamos deixar uma coisa clara. – falo entre os dentes – O texto é meu, e faço com ele o que quiser. Aconselho-os a se comportarem. Esta discussão irá apenas precipitar as coisas.

Não. Façamos o seguinte. Você escolhe. Sim. Você. Cabe a você decidir se este texto deve ou não existir. Digo: decidir se ele deve continuar ou não a ser lido, já que escrito ele já foi e sobre isso não a nada que possa fazer.

(pausa para que você decida se irá ou não continuar a ler este texto)

- Excelente! – grito e as pessoas do restaurante olham para mim – Este texto não deve estar assim tão mal. Afinal, você resolveu continuá-lo, talvez curioso com seu desfecho.

Com a mão esquerda, Jean Basquiat apertou duas vezes uma bola de tênis invisível, e o orgasmo chegou como um trem bala. Demasiado conhecimento. A solidão daquele estúdio lhe contou todas as regras do universo, cada detalhe, até a exaustão.

Sua cabeça se inclinou para frente, e ele repousou o corpo no chão, morto.

Até os anjos costumam sentir vertigens diante do infinito.


Existo

Imprimiram-me. Cheiro a novo. Ninguém ainda me leu e até agora só tenho duas olheiras. Fabricaram-me para iluminar. Sou louco, sou paginado, sou rei. Folheie-me rápido que viro vento. O assunto pouco importa. Ele, com certeza, interessará alguém. Fui árvore, virei celulose e agora sou letras. Sou parágrafos e páginas. Sou índice, apêndice e prefácio. Sou aquilo que chamam “melhor presente”. Sou mais eu.

Cedo vim para a vida. Colocaram-me dentro de uma caixa e me trouxeram para uma livraria. Vim para o meio de meus irmãos. Eles são grandes, pequenos, ilustrados, fascículos, educativos, caros e de bolsos. Há até mesmo livros estrangeiros.

Um dia a garota que me escrevera veio nos visitar. Ela se sentou, autografou e depois partiu, e eu tive certeza de que aquilo significou um adeus.

Às vezes alguém me folheia e lê algumas de minhas páginas, mas logo eu volto para a estante e não perco as esperanças. Mais cedo ou mais tarde chegará o meu momento.

Algumas crianças passam por mim, correndo.

Alguém lê um dos meus parágrafos e me mostra os dentes, sarcástico. Esse ainda tem muito a aprender.

Mais crianças.

Tenho tido uma vida tranquila. Verdade que, desde que os leitores eletrônicos chegaram, nós perdemos o nosso lugar no mundo. Alguns românticos ainda nos preferem, mas esta sociedade tem-se transformado em algo, digamos, demasiado “bites and bytes”.

Uma pessoa me ignora, alguém toca a minha aba, um cliente compra o meu vizinho – sentirei falta dele – e um dicionário cai no chão, por acidente. Deve ter doído. Ele é recolocado na estante, mas agora está danificado. Coitado. Espero que não seja colocado de lado. Afinal, o seu conteúdo ainda está intacto.

E, assim, vivo.

Não sei qual será o meu destino, mas espero que ele seja aquele pelo qual mais tenho esperado.

Um dia um leitor entrará na loja, virá até mim e me retirará da estante com as duas mãos. Eu serei o tesouro que ele tem procurado. Ele me levará para o caixa, pedirá à vendedora que me embrulhe e me abrirá em casa, como se se tivesse comprado o seu melhor presente. Ele me lerá uma, duas, três vezes, me colocará na sua mesinha de cabeceira, me lerá de novo, me lerá no ônibus, no jardim, me colocará na sua estante, me pegará de novo para ler e nunca irá querer me emprestar. Eu serei o seu melhor amigo, o seu ponto de referência. Amarei-o e serei amado por ele. Claro que passarei alguns dias sem vê-lo, sem ver as suas mãos, seus dedos, seus olhos, mas logo ele virá de novo à minha procura e me reencontrará como se tivesse encontrado uma novidade, como alguém que se esbarra com um velho amigo depois de muito tempo. Estaremos para sempre ligados. E, quando ele for se mudar, eu estarei na sua caixa de papelão especial – aquela que ele não ousará entregar para a agência de mudanças –, para, logo, encontrar com ele um novo lar, uma nova estante, um renascer.

Assim, mesmo que ele um dia morra, que eu termine em algum sebo, que eu seja vendido pelo seu sobrinho por alguma pechincha, não me importarei. Eu terei tido uma boa vida, certo de que, mais cedo ou mais tarde, alguém irá querer de novo me ler.

E que venham as cinzas! Jamais terei medo.


Existo II

<< No princípio era uma ideia, um sentimento, algo transparente e pesado que flutuava entre nós. No princípio era uma conjetura, uma alma sem corpo, um pensamento que não existia e que precisava, urgentemente, amar.

No princípio...

Ele não terminou de ler o meu segundo parágrafo e me colocou de volta na estante, sem olhar para trás. Palhaço. Sabia que mais cedo ou mais tarde chegaria o meu momento, e, de qualquer maneira, estávamos para fechar.

“Palhaço.”

- Então? O cara não gostou do que leu? – O Idiota perguntou-me, sarcástico.
- Cale-se.
- Ele deve ter pensado que se tratava de uma agenda. – Os Irmãos Karamazov começaram a rir.

Eles não faziam por mal – era a natureza deles –, mas lamentava, diariamente, a proximidade daqueles russos.

- O que está acontecendo? – Ricardo III gritou da outra estante.
- Oh, merda... – murmurei. Das obras do Shakespeare também.
- Alguém deu uma folheada no nosso amigo aqui e o colocou de volta na estante. Ele deve ter se esbarrado com um de seus advérbios.
- Até você, Anna?
- Ahahah! – As Alegres Comadres de Windsor gargalharam.

As noites mal dormidas eram raras, mas tinham qualidade.

- Espero ansiosamente que você se recupere rapidamente.
- Quer saber? Vaffanculo!

Ninguém ainda me havia lido e até aquele momento só tinha duas olheiras. Tinha sido fabricado para iluminar. Era louco, paginado, era rei. Folheasse-me rápido que virava vento. O assunto pouco importava. Com certeza, interessaria alguém.

Cedo me haviam trazido para a vida. Fora colocado dentro de uma caixa e levado para uma livraria. Havia ido para perto de meus irmãos. Grandes, pequenos, ilustrados, fascículos, educativos, caros e de bolsos. Até mesmo primos estrangeiros. Certo que não conseguia fazer amizade com todos, mas não havia um, um código de barras, que não merecesse o meu respeito.

Tudo bem. Naquele mesmo dia, um pouco mais cedo, a menina que me havia escrito viera nos visitar. Ela assinara vários dos meus exemplares, dera umas voltas e depois partira, e todos sabiam que era por isso que eu estava tão suscetível aos comentários daquele imbecil.

Ela não chegara nem mesmo perto de mim.

***

O sol atravessou a vitrine e aqueceu os mais afortunados.

O gerente também chegou, abriu a portas e começou a nos alinhar, um por um.

- Eu mesmo irei comprar as flores. – Miss Dalloway disse.

Olhei para os lados e vi que, lentamente, todos começavam a acordar. Lentamente não, pouco a pouco.

Tínhamos uma vida tranquila. Verdade que, desde que os leitores eletrônicos chegaram, havíamos perdido um pouco nosso lugar, mas continuávamos orgulhosos daquilo que éramos e sabíamos que os românticos ainda nos preferiam, que seríamos sempre melhor que um par de “bytes and bites”.

O cheiro era nosso trunfo. O cheiro, a textura, o peso e a sensação que todos experimentavam quando nos tinham entre as mãos. Éramos a história. Éramos a primeira herança e seríamos para sempre a grande prova da evolução. A roda bem havia ajudado, mas graças a nós alguns povos não a tiveram de descobrir uma segunda vez.

O primeiro cliente entrou, distraído. De repente, algumas crianças passaram por mim. Uma cliente entrou, mais um cliente entrou, e a vendedora também chegou. Alguém me ignorou. Uma cliente levou o meu vizinho para longe, e tive certeza de que sentiria saudades dele.

“Adeus.”

Uma cliente passou perto de mim. Um cliente também passou perto de mim, alisou a minha aba e esbarrou em Dorian Gray, que caiu no chão com um barulho seco.

“Ui.”, pensei. Deve ter doído. O homem se abaixou, pegou o jovem inglês nos braços e o recolocou na estante, mas era visível que ele, depois da queda, ficara danificado. “Coitado.”, murmurei. Esperava que não o colocassem de lado. Afinal, o seu conteúdo ainda estava intacto.

Eram estranhos os critérios que nos faziam ou não partir. De um lado: o nosso lugar de destaque, na mídia, se tínhamos um bom acabamento, um bom resumo na quarta capa, quem havia escrito o prefácio, se estávamos impecáveis, se a nossa capa era bonita, se o autor era conhecido, se éramos um clássico – já que os leitores sempre se sentiam mais cultos quando compravam um clássico –, se éramos novidade – já que os leitores sempre se sentiam mais saciados, mesmo que fosse por alguns momentos, quando compravam uma novidade –, ou se tínhamos um bom preço; de outro: se éramos impressos a pedido, se dependíamos do boca a boca, se nossa gráfica havia economizado, se tínhamos uma folha cuja ponta havia sido dobrada, se éramos discretos, se nosso autor era desconhecido, ou se tínhamos um preço elevado. Não adiantava. O estilo não era o principal. Até mesmo o assunto era mais importante, já que alguém que gostasse de mistério pensaria com frequência que não teria nada a aprender dentro de um romance ou com uma coletânea de poesias. Éramos, enfim, um produto de consumo, muito diferente daquilo para que havíamos sido criados.

Sonhava que criassem um novo tipo de livraria. Nenhum título, nenhum nome de autor, capas brancas, sem orelhas e todos alinhados à mesma altura e numa estante circular. Isso sim seria nos dar a mesma oportunidade. O cliente entraria, pegaria um de nós ao azar e leria algumas de nossas linhas; se quisesse continuar a sua leitura ou não dependeria dele. Seríamos escolhidos apenas por uma inexplicável e deliciosa atração.

- Outro cliente. Aposto que veio comprar um dicionário. – o Jogador me trouxe de volta à realidade.

Saí do meu devaneio e tomei consciência de que o tal cliente vinha direto na minha direção, com passo firme. Ele esticou as duas mãos, sorriu, e eu prendi a respiração. Ele sabia sem nenhuma dúvida aquilo que queria. Ele folheou minhas páginas, respirou o vento que nascera e me levou até o caixa, não me dando nem tempo de me despedir de meus – poucos – amigos.

Uma nova vida começava.

Em casa, fizemos amor pela primeira vez. E, nos meses a seguir, ele me leu uma, duas, três vezes, me colocou na sua mesinha de cabeceira, me leu de novo, me leu no ônibus, no jardim, me colocou na sua estante, me pegou de novo para ler e se negou a me emprestar. Havia me transformado na sua melhor companhia, no seu ponto de referência. Claro que passei alguns dias sem vê-lo, sem ver suas mãos, seus dedos, seus olhos, mas ele sempre voltou à minha procura, reencontrando-me a cada vez como se tivesse reencontrado um velho amigo, depois de muito tempo. Ficamos para sempre ligados, encontrando, a cada nova manhã, um novo renascer. >>

- Pronto. Eis a minha história.
- Waow. – minha versão de bolso disse.
- Agora vá dormir. Está ficando tarde.
- Mas...
- Sem mais nem menos. Amanhã podemos continuar.

Assim, mesmo que um dia morresse, que alguém me levasse para um sebo, me vendesse por uma pechincha, não me importaria. Teria tido uma boa vida, certo de que, mais cedo ou mais tarde, alguém iria querer sempre de novo me ler, ou ao menos conhecer a minha história.

Assim, continuaria vivendo, sem medo de nada. Nem mesmo das cinzas.


Involuntário

Olho para o relógio e vejo que são duas horas. Levanto a cabeça e nada de bonde. Olho de novo para o relógio e vejo que ainda são duas horas.

Na rua deserta, apenas uma menina ruiva sentada nos degraus de uma escada e eu. Está com soluço. A ruiva com o queixo apoiado em uma das mãos e o moreno. Não conheço muitos cabelos como aqueles, e os observo como se não os quisesse perder.

- Bom dia. – longe demais para me escutar.

Por um momento nos encaramos – será que me escutou? – e contemplo sua bolsa, uma bolsa velha, de senhora e com alça partida, e ela a aperta com mais força contra seus joelhos e olha para o outro lado.

Outro soluço.

Abro um pouco a gola da camisa e suspiro. Nada de bonde.

De repente, do ângulo da esquina, uma senhora aparece com um basset, russo. Vêm na direção da menina. Caminham com passo firme, quebram a rotina, e, bem na frente dela, como se tivesse sido chamado, como se tivesse chegado ao seu objetivo, o cachorro para e a encara, mostrando a língua para aqueles dois olhos abertos.

A russa e o russo. E eu.

Finalmente, a dona balança seu guarda-sol com violência e faz o basset avançar. E a menina fica lá, imóvel, com a mão esticada como se ainda o pudesse tocar. O cachorro, por seu turno, não olha para trás nem uma vez.

Outro soluço.

Escuto uma sineta e fico de pé. Era o meu bonde.

Abaixo o braço, lentamente.


Milkshake

Paro na frente do liquidificador e abro uma garrafa de Puccini. Esse será o meu leite. Nasci trágico. Sou assim. Também gosto de Aranjuez, Rachmaninov e Pink Floyd, mas Puccini? Giacomo Puccini? “Nessun Dorma!”, “Un Bel Di Vedremo” e “Recondita Armonia” são, para mim, como o ponto de fuga de Michelangelo, Pollock e Shakespeare.

Já agora uma latinha de Hemingway – ele me inspirou partir do Brasil – e uma dose de conhaque, para não me esquecer de que comecei a beber, regularmente, aos 13.

Cedo demais? Eu consegui fazer sexo pela primeira vez antes de ter conseguido beijar uma garota na boca, o que me aconteceu apenas aos 14. Aliás, aos 14 também fui expulso do Colégio Zaccaria, por causa de uma redação que escrevera.

Eles ainda devem tê-la arquivada.

Cem mililitros de viagem, uma xícara de cigano, três gemas de desenhista, vinte gramas de preguiça, dois dentes de natação, uma colher de kung-fu e mais viagens.

Adoro viajar. Adoro viajar e me sentar numa sombra, pronto para escrever. Adoro dormir em hotéis, tentar me comunicar no idioma de um lugar e andar de trem. Um homem sobre o trem.

Adoro comer também. Adoro comida italiana, japonesa, portuguesa e francesa. Adoro pão de queijo, acarajé e esfirra de queijo.

Vou até o armário e pego a caixa de temperos. Não economizo. Seis pitadas de outras línguas, cinco corações quebrados, quatro seguranças sociais, três anos de faculdade, dois instrumentos musicais e um Caminho de Santiago.

Um serviço militar, ralado.

Uma dose de egoísmo, filantropismo, timidez, extroversão, otimismo, depressão, humildade e presunção; depende do momento.

Despejo alguns grãos de amizade e me apresso para corrigir o erro. Perdi contato com alguns, irritei-me com outros e decepcionei vários. Deixo apenas as sementes que tiveram tempo de crescer.

Um caldo difícil com meu pai e, certo, uma folha de Deus. Uma vez tive um déjà vu fenomenal em Londres e não fiquei surpreso.

Liquidifico um pouco para homogeneizar a bebida e provo o resultado. Não estou satisfeito.

Tento imaginar aquilo que falta.

O ambiente. Exato. Eu não sou apenas eu. Eu sou tudo o que me cerca e o que me cercou. Sou onde nasci, com quem cresci e o que vejo na televisão, mesmo sabendo que somos – quase sempre? – manipulados. Espremo um pouco de tudo isso. Sou a educação que tive e também as decisões que tomei. Sou os valores que construí e os valores das outras pessoas. Sou uma longa estrada. Sou o olhar perdido, os dez colégios em três anos, os trinta empregos, a dúvida, a certeza, o precipício e a asa. Sou o desejo de fazer diferente. Sou minha mãe, meu irmão e meu sobrinho. Sou a família que tenho. A família que esteve aqui, que tem estado e que estará, mesmo sem a minha presença. Tenho sangue espanhol, italiano, português e libanês. Trinta pessoas participavam do meu Natal no Brasil, estou num casamento feliz há dez anos e tenho ao meu lado um filho maravilhoso, Tiziano, que trouxe o amor encarnado para a minha vida. Ele é o meu desejo de um futuro melhor. Ele sou eu.

Amor. Eis o ingrediente que faltava. Amor e algumas gotas de Azul-Corvo, o que dará o perfume à minha bebida.

Agora sim: perfeito.

Silêncio

Ele entra ao lado de sua mãe. Todos cochicham. Reconhece poucas pessoas, ninguém nota suas presenças, e eles estacam. Apenas sua prima não os ignora. Está chorando. Vem até eles, abraça sua mãe durante mais de um minuto e o abraça, e sua mãe começa a chorar.

Tinham se visto diversas vezes durante as últimas semanas, mas os tinha abraçado como se tivessem chegado de uma longa viagem.

Dali vai direto para a varanda, observar o movimento dos carros. O asfalto ainda está molhado, e um arco-íris corta o quadro.

Um carro de bombeiros passa.

Ele devia ter uns cinco anos quando ganhou aquele carro de bombeiros de brinquedo. Abriu o embrulho e a caixa, tirou o veículo para fora com as duas mãos e rapidamente aprendeu a utilizar os três botões que ficavam na carroceria de plástico. Um botão para fazer o carro andar, outro para fazê-lo parar e um terceiro para subir e descer a escada Magirus.

Uma mão toca seu ombro. Sua mãe. Ele a segura com força e se senta, e ela permanece de pé.

Sentado, vê um quadro de avisos. Pequenos, grandes, amarelos, brancos e com fotos. De onde está, não pode ler o que está escrito neles, mas olha para cada um como se estivesse olhando para um mapa. Uma trilha que havia sido deixada há tempos sem nenhum ponto de chegada.

Sua prima aparece e troca algumas palavras com sua mãe. Sorriem para ele, e ele sorri de volta, mas logo olha de novo para o quadro.

Em qual daqueles papéis estaria a resposta para suas perguntas? Onde poderia ler as instruções para compreender sua ansiedade? Qual seria o aviso que fora destinado para ele?

As duas mulheres voltam para dentro da sala. Sua mãe o chama para acompanhá-las, mas ele fica onde está.

Em uma das extremidades da varanda, um bebedouro.

Analisa uma decoração de mármore e distingue um buraco.

Um senhor passa por ele e o cumprimenta.

Ele olha de novo para o quadro e trinca os dentes. Ele olha para suas unhas.

Uma hora mais tarde, depois de ter ficado sozinho outras duas vezes, despede-se de sua prima e se prepara para partir. Contudo, como ainda não tinha falado com seu padrinho, encaminha-se, enfim, para o centro da sala.

Seu padrinho sorri, e ele olha, finalmente, para sua madrinha.

Dentro do ônibus, ao lado de sua mãe, seus ombros balançam, e lágrimas caem.

Ele devia ter uns dez anos quando jogou seu carro de bombeiros fora. A escada Magirus estava quebrada. Ela subiu uma última vez, e ele não conseguiu mais fazê-la descer, por causa de algum mau contato.


Toc Toc

A porta se abriu, e reconheci a mulher. Reconheci também seu sorriso.

- O senhor estava mesmo perto.

- A senhora teve sorte. Estava fazendo um serviço aqui ao lado.

- Entre. Entre.

Havia inserido o apartamento no grupo “clientes simpáticas e bonitas”. Daquela vez, contudo, teria de pegar leve. Seu marido estava em casa.

- Bom dia. – ele disse, e um sorriso foi seu único gesto de simpatia.

- Bom dia. – sorri de volta.

Conhecia o caminho. Fecharam a porta atrás de mim, e fui para o alvo, meu alvo; minha especialidade.

- Então você quer bancar o durão. – murmurei.

Joguei minha bolsa no chão, tirei para fora duas ou três ferramentas e coloquei minhas luvas, com a delicadeza de um cirurgião.

Meu almoço teria de esperar.

Assim como havia feito na semana anterior, inseri a bomba de ar dentro d’água, bombeei-a cinco ou seis vezes, olhei a reação do gesto no ralo da ducha, tirei o cabelo da testa com o antebraço, repeti a operação mais algumas vezes e pronto. O problema havia escoado.

- Já? – a cliente perguntou quando reapareci.

- Sim. Mas hoje vou me certificar de que não há nada preso no encanamento.

Desci até meu carro, peguei meu Roto Rooter e voltei para a frente de batalha.

- Foi você quem pediu.

Tirei os parafusos da sua armadura, coloquei-a de lado, inspirei com força e encarei de novo o buraco negro de nossas vidas. Nada havia mudado. Cada vez que olhava para dentro via a escuridão, mas cada vez que o que é estivesse lá dentro olhasse para fora não saberia distinguir a traseira de um rei da de um pobre.

No final, uma calcinha. Alguém tinha dado descarga numa calcinha. Com certeza, algum locatário que não tinha estado contente com o proprietário.

Fui embora, novamente, sem nenhum aperto de mão.

“Preciso de férias.”


Pratenses

Os pratenses são de ouro.

Comparado com algumas pessoas, sou um cara que já viajou bastante. Contudo, depois de mais de 17 anos vivendo fora do Brasil, não acredito mais na crença de que viajar tem o poder de nos tornar pessoas melhores. Cada novo lugar que conhecemos enriquece as nossas experiências, mas não nos ajuda, ao menos de imediato, a alcançar o reino da sabedoria.

Confesso que, na primeira vez que estive em Paris, mais exatamente no alto da Torre Eiffel, pedi para uma japonesa tirar a minha foto e, por um momento, até pensei: “Waow! Consegui!”. Consegui nada. Ainda teria de caminhar muito para ter o direito de escrever este texto.

E isso tudo porque tenho visto milhares de pessoas viajando por aí, tirando “selfies” ao lado da Monalisa, conhecendo três países em uma semana, colocando cadeados em pontes que viram apenas três vezes e tenho me lembrado de como eu próprio era em 98. Bastante fome eu tinha, verdade, mas muito pouca consistência.

Agora vamos fazer uma pequena experiência. Por favor, responda ao seguinte questionário:

1. O que seria capaz de mais enriquecer a sua vida?

a. Subir a Torre Eiffel.

b. Aceitar o convite de uma estranha para beber um café na sua cozinha.

Não estou dizendo que viajar não é bom. É ótimo! Como uma vez disse um amigo meu, espero morrer com uma mochila nas costas. Mas, para mim, mais vale passar um mês em Paris enfrentando fila pra comprar pão, fazendo amizade com alguém na fila do açougue e tentando aprender uma nova língua no tapa do que subir a Torre Eiffel só para colocar uma foto sua na internet. Mais vale passar duas semanas em Águas da Prata tomando uma cervejinha com alguns pratenses, tomando cafés nas cozinhas de estranhos e se banhando na Cachoeira Cascatinha com um grupo de amigos do que ir ao Rio de Janeiro só pra pegar um bondinho, tirar algumas fotos do Corcovado e achar que com isso se tornou uma pessoa melhor – ainda mais sabendo que Águas da Prata também tem o seu próprio Cristo.

A maior riqueza de um lugar não se encontra nos seus monumentos, mas nas suas pessoas, e, para tomarmos consciência disso, basta imaginar a cabeça de um parisiense que acabou de chegar a uma das cidades do interior de São Paulo para aprender português com o primo da prima de um amigo seu de Paris. Que aventura!

Mas certo que tudo isso é apenas a minha opinião. E, já agora, de brinde vou dar também uma sugestão: se você tiver condições para viajar, viaje, viaje muito, mas nunca se esqueça de que o lugar mais interessante do mundo se encontra dentro da alma humana.


Natal

Dia 24 de dezembro (de 2015), meu filho terá um dos melhores Natais de sua vida. Digo isso porque, na próxima quinta-feira, com apenas – quase – três anos de idade, ele ainda não terá feito nenhuma lista daquilo que gostaria de receber, ainda não terá noção de que em breve irá ganhar vários brinquedos e será – como já tem mostrado – grande o bastante para reconhecer uma noite distinta.

Lembro-me de quando eu era pequeno e brincava com os meus primos perto da árvore de Natal, apenas para identificar os meus presentes.

Neste Natal, meu filho ainda não fará isso. Ele nem mesmo suspeitará da sua prima. Neste Natal, meu filho ainda terá dois anos e dez meses, muito antes de começar a ganhar roupas e muito, muito antes de começar a ganhar apenas meias. Meu filho ainda será o meu bebê. O nosso bebê. Muito antes de saber que o Papai Noel se vestia apenas de verde e muito, muito antes de entender que a comunhão do Natal se limita normalmente aos membros de uma família; porque precisamos ter lembranças de uma pessoa para poder abraçá-la, ter uma história com alguém para abrirmos o nosso coração e saber onde uma pessoa mora para chamá-la de vizinha.

Neste dia 24, não. Para meu filho, ainda farei parte da sua Santíssima Trindade. A sua mãe e eu ainda seremos, dentro da sua minúscula realidade, os dois outros episódios da sua única trilogia. “Papa, maman et Tiziano!”. Ele chegará à casa dos meus sogros, beijará os seus parentes e, depois de tirar o casaco e as botas, irá correr com a prima, feliz da vida, sem entender por que eles não podem se afastar da árvore iluminada.

- Atenção, filho. Cuidado com a árvore.

E eu estarei lá, sentado à mesa, de olho para que ele não se machuque. E eu estarei lá, distraído com a minha taça, torcendo para que a campainha toque.

Eu, então, me levantarei, olharei através do olho mágico e verei um estranho. Terá ele a mesma religião que a minha? Será melhor pedir-lhe que me passe o seu extrato judiciário por debaixo da porta? Falará ele uma das línguas que conheço? Reconhecerei a minha cor de pele? Estará ele com os seus impostos em dia? Terá nascido na mesma cidade em que eu nasci? Ou será melhor ignorá-lo, já que, afinal, ele estará interrompendo um momento de fraternidade – em família?

Coragem, André.

Neste dia 24, enquanto meu filho estiver brincando, sua prima estiver lendo nomes e meu sogro estiver sorrindo, eu estarei lá, mais uma vez, à espera que este Natal seja, também para mim, um dos melhores.


Chuvas de Prata

Não. Não é fácil. Não é fácil ter de sair de casa, recomeçar de novo e perder tudo. Nunca foi. Tudo bem que podemos contar com nossa fé, com os amigos, com a família e que às vezes podemos contar até mesmo com os políticos, mas não é fácil. Não é fácil entender o porquê e perder anos de trabalho e de amor em apenas alguns minutos.

Você sabia que um monge budista, depois de passar inúmeros dias a fazer uma colorida mandala de areia, destrói o seu trabalho em dois segundos? Apenas para recomeçar de novo? A temporaneidade das coisas.

Este não é um texto religioso. Este é um texto sobre coragem, venha ela de onde vier.

Mais de quarenta famílias desabrigadas, mas o que fazer? Choramos, nossas lágrimas se evaporam, viram chuva, transbordam os rios, inundam as casas, nos fazem chorar e voltam para as nuvens. Não é fácil recomeçar. Contudo, recomeçar é uma das mais fantásticas capacidades do ser humano. O poder de recomeçar tudo.

Verdade que temos de reiniciar do zero, que estávamos prestes a realizar o nosso maior sonho ou que tínhamos, enfim, alcançado uma tranquilidade na vida, mas o que fazer? O que fazer diante daquilo que nos aconteceu? Sentar no chão, cruzar os braços e dizer que Deus não é justo? Esperar a morte chegar? Ou segurar a nossa existência com as duas mãos e mostrar que a nossa alma é de ouro e que somos ainda capazes de surpreender nós mesmos e o mundo? Respeito quem escolha a primeira opção – somos almas livres –, mas tenho absoluta certeza de que todos nós somos capazes de escolher a via da coragem, simplesmente porque essa é a nossa natureza.

A idade não ajuda? O dinheiro não ajuda? O trabalho não ajuda? A saúde não ajuda? Ainda menos fácil então, mas o que fazer? Desistir? Socar a parede? Ou lutar apenas com o olho que temos e seguir em frente? Coragem! Coragem! Daqui a dez anos essa chuva será apenas uma lembrança (uma marca no muro de uma casa), e aquilo que você resolva fazer hoje estará para sempre ao seu lado, no olhar das próximas gerações de pratenses.

Caros políticos, para vocês apenas três – gigantescas – responsabilidades: minimizar os danos morais e materiais dessas famílias e tirarem disso tudo uma lição. Procurem os motivos de tal desgraça, usem o poder que lhes foi concedido – temporariamente – para ajudar essas pessoas e façam alguma coisa para que tais tragédias não aconteçam novamente. Certo que não podemos desviar o curso de um rio, que o poder que foi concedido a cada um de vocês tem sido limitado, mas certo também que a inteligência e o amor de cada um de nós não têm limites. Um político também pode gravar o seu nome em nossos corações, e isso apenas depende dele.


Espanha 82

Eu tinha onze anos quando a minha infância acabou. Chorei muito. A camisa do Zico rasgada, as caras do Waldir Peres e os gols do Paolo Rossi. Lembro-me de ter feito figa pro Leão na Copa de 78, junto de minha família na casa de meus avós, mas foi apenas em 82 que realmente torci e perdi, que acreditei que o futebol era capaz de elevar um povo ao Olimpo mas que despenquei como Ícaro, ao lado de uma das melhores seleções de futebol que o mundo tem conhecido.

Penso que, quando comemorei o nosso tetracampeonato, o que comemorei mesmo foi a Copa da Espanha, como se eu tivesse ficado engasgado durante toda a Idade das Trevas, Era Maradona, e pudesse enfim tocar o Sol.

Novembro de 2011, eu estava saindo do elevador do meu antigo trabalho, que ficava na saída oeste de Paris, quando um colega francês meu me perguntou:

- Você viu que o Sócrates morreu?

Eles não foram somente os nossos filósofos, foram os pensadores da humanidade, que deixaram toda uma nova escola de futebol para as gerações futuras.

Às vezes sou assaltado por uma nostalgia do Brasil, dos anos em que fui feliz na Terra do Pelé e dos amigos que deixei ao longo do caminho. Contudo, sabemos que não podemos voltar atrás, que temos seguido um caminho, às vezes duro, que nos levou a ser pentacampeões, que posso apenas recordar e sorrir, como um orgulhoso soldado, ao se lembrar de uma das mais sangrentas batalhas que perdeu em uma guerra que tem vencido.

Aos nossos heróis que viveram pela Pátria.

Feliz 2013

Em 2013, desejo que você...

Pare de fumar completamente
E beba menos.
Essas coisas debilitam o corpo e enfraquecem a mente.

Coma mais legumes e verduras,
Coma menos carne vermelha,
Beba menos refrigerante
E deixe de ir a rodízios, onde você sempre come mais do que o seu corpo necessita.

Venda seu carro,
Comece a usar transportes públicos,
Ou compre um carro elétrico, se o puder,
Ou vá de bicicleta para o trabalho, se o puder.

Faça esporte.

Gaste menos energia elétrica em casa,
Gaste menos petróleo em casa, se você o utiliza para aquecê-la (meu caso).

Pare de ver tanta televisão,
Pare de ver programas inúteis,
Pare de ver publicidade,
Pare de engolir todo o lixo que nos empurram.

Leia mais,
Procure uma biblioteca perto de sua casa ou do seu trabalho
E compre menos.
Compre menos DVDs, CDs e livros que você assistirá, escutará e lerá apenas uma vez (fala um escritor).
Compre menos roupas de marca
E compre menos produtos chineses porque são baratos, pois eles custam a escravidão em um país distante.

Consuma menos.
Eles sempre estarão lançando pequenas novidades.
Você irá querer sempre comprar todas?

Cancele seu cartão de crédito,
Cancele seu cheque especial,
Não compre mais em prestações,
Não gaste o dinheiro que você ainda vai ganhar,
Não pague juros.

Não veja o esporte como uma competição entre duas equipes,
Desista das diferenças de cores, nacionalidades, estados, sotaques e religiões.
Isso tudo apenas separa os homens.

Não queira mais competir, sobressair, vencer, mas continue lutando pelo seu melhor.
E o melhor de seu vizinho, não apenas o de sua família.

Pare de falar mal das pessoas pelas costas,
Lembre-se mais dos seus defeitos do que os dos outros.
E pare de pensar que estão falando de você.
As pessoas têm coisas mais importantes para pensar.

Quantos anos você tem?
20? 50? 80?
Sua vida está apenas começando.
Não procure uma situação cômoda para o resto da vida,
Pois a morte irá chegar de qualquer maneira.

Não tenha medo de amar, mesmo se for para sofrer,
Pelo contrário até, agarre essa oportunidade com unhas e dentes.
Um dia ela irá embora, e apenas restará aquilo que você sentiu e fez.

Não fique tanto na frente do computador,
Ou use-o para coisas mais úteis.

Agradeça a todos os seus amigos e amores de seu passado
E siga em frente.

Estude, aprenda coisas loucas, viaje.
Por que não aprender o grego, ou o japonês?
Existe um mundo lá fora esperando por você.

Entre naquele museu que fica ao lado da sua casa e no qual você nunca entrou.

Faça uma lista de 30 coisas que você pretende fazer próximo ano
E lute por cada uma delas já a partir dos últimos dias do ano velho, pois você precisa fazê-las!
E para cada item realizado, escreva outro de que você ainda se lembrará.

Sonhe alto, lute com todas suas forças e realize.
E nunca se esqueça,
Você não precisa de algo ou de alguém para ser feliz, nem mesmo desse texto,
Pois você tem tudo dentro de você.

Feliz ano novo.


Meu último Blues

Morri afogado. Nas minhas próprias lágrimas, num copo de uísque, no meio do Saara. Lembro-me de que eu não estava sozinho. Depois, o empurrão. O empurrão, a queda e o mar. Eu e o mar. Sem salva-vidas, incapaz de nadar, com sede. À minha volta, apenas sal. Sal que também escorre das minhas íris e que sobrevoam a minha língua, como um vento seco.

Olho para o céu e vejo um arco-íris, um daqueles que circulam o sol e onde não há pote de ouro algum, só sal. Sal que tem estado presente nas comidas suculentas e que fizeram da minha morte um momento insosso. Eu ainda tentei me agarrar a algo – a uma mão, a um parapeito, ao centro da circunferência – mas apenas encontrei o vazio. O vazio, o mergulho e o sal. Eu e o mar. Mais ninguém.

Um dia eu fui até a uma encruzilhada e esperei pelo diabo, mas ele não apareceu. Que merda de alma que nem o diabo quis comprar. Aliás, você sempre soube disso. Você foi embora porque você sempre soube disso. Eu era apenas um cara que tocava blues, e você nunca deixou de ser o meu vermelho.

A minha última canção, aliás, foi pra você.

Mala faca bala tara Mala faca bala tara Mala faca bala tara Mala faca bala tara

Bolo nojo toco soro Bolo nojo toco soro Mala faca bala tara Mala faca bala tara

Cujo furo pulo muro Bolo nojo toco soro Mala faca bala tara Mala faca bala tara


PQD

Como chegar a ser realmente livre?

O altímetro confirma a altitude necessária. Nunca estive tão alto. O instrutor abre a porta do Cesna, e o silêncio é preenchido pelo ronco surdo do motor e pelo fustigar do vento. Estou prestes a dar o meu primeiro salto de paraquedas, em Évora, no Alentejo de Portugal. O avião está a três mil e quinhentos pés de altura e a sete mil e quinhentos quilômetros do Rio de Janeiro, onde nasci.

Estou trabalhando há mais de três anos em Lisboa. Programador de computadores. Participara da conversão do Escudo para o Euro e da adaptação de sistemas informáticos para o ano dois mil, um dos maiores blefes da história e um dos responsáveis por aquela nova migração em massa.

Quase todos os estabelecimentos comerciais portugueses passaram a ter um brasileiro, assim como nas obras, nos escritórios; um povo que se mostrou fácil de distinguir, seja pelas roupas, pelos traços faciais, ou pela maneira de comportar-se – os lusitanos não costumam permanecer por mais de duas horas num telefone público, ainda mais de chinelos.

Eu havia sido apenas mais um no meio daquele novo êxodo no qual o Brasil redescobriu Portugal, e Portugal redefiniu o Brasil.

Primeiro, eles haviam cultivado – coloque novela nisso – uma visão quase perfeita de seus parentes do ultramar, na qual todas as mulheres seriam belas e os rapazes educados. Além disso, nas casas brasileiras, um porta-gelo reabastecido estaria sempre esperando o chefe da família voltar (de um trabalho longe da realidade do salário mínimo verde-amarelo).

Enfim, os "brazucas" – ver "portuga", brasileirismo depreciativo – demonstraram com o próprio exemplo a verdadeira face do Cabral: assim como em qualquer país do mundo, um número ínfimo de seus habitantes é capa de revista e nem todos pensam que batucar na mesa não é aconselhável.

O que é que eu estou fazendo aqui?

Outra característica pela qual ficamos conhecidos: nossas demasiadas saudades de casa.

Subimos em espiral para não perder o aeródromo de vista, e, como eu fui o último a entrar no avião, serei o primeiro a sair, com uma coreografia a ser iniciada com um sinal.

Deve ser esse.

O instrutor abaixou o polegar.

Coloco o pé esquerdo para o lado, e um tapa no meu calcanhar recorda-me do início correto. Reformulação dos movimentos. Levo o pé para fora, desta vez junto da mão esquerda e sinto um tranco ainda mais forte; o vento é a força da natureza que não irá parar por um segundo, sequer por mim, para que eu salte.

Minha perna, lutando contra uma corrente terrível e invisível, pisa no trem de pouso, enquanto minha mão alcança o suporte frio da asa. A seguir, é a vez do meu braço e pé direitos, para eu entrar num ambiente que jamais havia entrado antes, no meio do céu e a tocar diretamente o ar.

Um mundo irreal desfila. Mal consigo olhar para frente, por causa do mesmo vento, e o chão se comunica comigo através de pequenos quadrados desenhados; casas e carros do tamanho de formigas, pintura retorcida dentro de uma mente excitada.

Com as botas quase sobre as rodas, as mãos segurando o suporte da asa direita, dou curtos passos laterais, afastando-me da porta.

Eu devo lutar contra o medo.

Solidão. Chegara a um país onde não conhecia ninguém nem mesmo o idioma – rezara por um tradutor durante a minha primeira semana de trabalho – mas decidira persistir. No mesmo emprego de sempre, ainda acredito ser capaz de sentir a minha vida um pouco mais útil, bastante diversa dos anos de esbórnia que ficaram para trás. Tenho buscado, na distância, um crescimento artístico e, quiçá, encontrar minha humanidade, aquela escondida e ignorada dentro de cada um de nós. Sonho retornar ao Rio, sem dúvida alguma, mas somente depois de humanizar meus hábitos e escrever meu livro. E, já que eu partira para longe das pessoas que amo, abrindo mão de preciosos anos de convivência com elas, prefiro continuar apostando alto.

Calma.

Olho para minhas mãos e medito sobre qual é a maneira mais coerente para pensar neste momento. Como a partir de um pensamento lógico não é possível que eu esteja aqui, tudo deve ser uma ilusão que acabará a qualquer instante – na cama, no ar, no chão. Devo duvidar que estou acordado e acreditar que tudo não passa de uma fantasia, de uma rápida e profunda quimera; uma nova interpretação das coisas que será capaz de transformar todo este perigo em algo tão etéreo quanto os próprios sonhos. É isso. Eu estou dormindo, e tudo na vida, como este instante, não é real.

Sete dias depois de pousar na Santa Terrinha, quase desistira e voltara para casa; para alguém habituado à presença de parentes, amigos e lugares conhecidos, ficar mais de uma semana longe de tudo e de todos pode levar-nos a um ato de desespero. Tivera, então, de inculcar metas na minha cabeça e arranjar uma força sonâmbula para continuar por escassos seis meses, tempo que seria suficiente para que, ao menos, minha mãe conhecesse a Europa; ela merecia mais do que isso.

Os seis meses distanciaram-se, minha mãe já veio me visitar duas vezes, e eu continuo seguindo adiante.

"Quem achar a sua vida a perderá e quem perder sua vida por amor de mim a encontrará." Jesus passou em minha mente assim como os primeiros cristãos; assassinados, que sorriam e cantavam, enquanto eram devorados por leões. Penso no casamento, no trabalho, no egoísmo, nos vícios e nas coisas pelas quais lutamos e que dão algum significado à nossa existência. Penso nas contas bancárias, nas roupas de marca, nos carros e em vários símbolos da sociedade moderna. Tenho negado os ciclos viciosos do mundo e buscado aquele algo mais, pulando de braços abertos para fora do conformismo e dizendo um sonoro "não", como se pudesse gritar para Deus que eu não compactuo com toda esta lenta evolução.

Infelizmente, eu tenho descoberto que a distinção que conseguimos com aquilo que compramos se esta propagando, de maneira igual, mundo afora.

Passamos a ser ratos de laboratórios. Transformaram-nos em frutos duma sociedade de consumo e classificaram-nos como um poder de compra. Tamanha fora a luz do Iluminismo que essa mesma luz nos cegou.

Eu olho para a esquerda e vejo um novo gesto do instrutor, o que significa que, a partir de agora, eu estou só.

Tendo feito desta altitude uma aliada, começo a flertar com ela, para que nasça em mim uma vontade natural de atirar-me. Procuro enamorar-me dela para que nasça em mim a coragem de um amante apaixonado.

Levo meu corpo para frente e, depois de uma pausa, dou um forte impulso para trás, libertando os pés e as mãos ao mesmo tempo da aeronave e rendendo-me de corpo e alma ao espaço, sem hesitação.

Sem retorno.

Coloco as pernas, a cabeça e os braços para trás, em contraste ao meu quadril e sou engolido por uma sensação que perdurará ao tempo. Caio. Sou misturado ao ar e entregue às leis do universo; não somente à lei da gravidade, mas às leis de Morfeu.

Caio.

Caio.

Caio.

Vou caindo.

Caindo…

Caindo…

Caindo…

Segundos que parecem séculos. Uma vida é um piscar de olhos.

O Brasil de minha memória ficou para trás, como se tivesse permanecido dentro daquele monomotor; o Brasil das belezas e das misérias; o Brasil dos exemplos pessoais, mas também de um nível de violência, inflação e corrupção ao qual quase me habituara. O Brasil, o meu passado, tudo ficou no sorriso daquele instrutor. As favelas, os trabalhadores honestos, os chopes de sexta-feira, a humildade, as duras da polícia, a força de vontade, balas perdidas, o sorriso sem dentes, meus amigos que estão seguindo diferentes caminhos, meu sobrinho que está crescendo longe de meus olhos e minhas antigas paixões. Do Rio, apenas contatos telefônicos, notícias via internet e jornais que são vendidos com dois dias de atraso, permitindo-me acompanhar, de fora, as notícias mais importantes de "minha" Nação.

Caindo…

Caindo…

"Estudante assassinada pela polícia após assalto frustrado!"

"Racionamento de luz no país com os maiores recursos hidrelétricos do mundo!"

Caindo…

Caindo…

"A destruição da Amazônia!"

"Morte do primeiro deus da televisão!"

"Sequestro da filha do segundo deus da televisão!"

"Plano contra fome!"

Caindo…

Acontecimentos que passaram a ocorrer distantes demais para continuarem a interferir, ao menos diretamente, em minha vida. Apenas um cordão sentimental se mantem, apesar das palavras que continuam soando:

- Não volte! A coisa aqui está cada vez pior!
- Mas eu quero voltar!
- Não volte! Mantenha-se aí, pois é onde todos nós gostaríamos de estar e você já deu esse passo! Não desista!

Caindo…

Mas se, para os outros, viver na Europa significa uma idealização perfeita, repleta de romantismo, para mim, é uma realidade que eu devo enfrentar. Nenhum lugar é feito apenas de flores, e é fácil falar.

- Abertura automática: este tipo de paraquedas está preparado para ser engatilhado por um gancho que, amarrado a um cabo resistente, irá abrir o paraquedas depois do salto com a tensão no cabo resultante do afastamento do paraquedista em relação ao avião. Este tipo de paraquedas permite, assim, saltos de baixa altitude, já que o paraquedas é aberto quase instantaneamente. – dissera o instrutor durante a formação, como se fosse uma Wikipedia com pernas.

O avião provoca a abertura automática do paraquedas, e um solavanco recorda-me de sua existência.

Ainda estou caindo…

Caindo…

Caindo mais devagar…

Depois de mais alguns trancos, o equipamento abre-se por completo, permitindo-me dividir, com o vento, o seu comando.

Olho para cima e vejo o paraquedas aberto, olho para baixo e vejo o aeródromo. Grito. Grito bem alto. Balanço as pernas e faço testes com o equipamento. Não muitos, pois ainda tenho medo que ele se feche, que ele se rompa, que ele se parta. Olho para o horizonte, para o meu passado, para o meu futuro. Será que aquele pássaro está me vendo? Será que apenas ele ouviu meu grito? Será que, além de mim, apenas ele compartilha minha euforia? Espero que o pássaro se desvie. Olho para dentro de mim e vejo alguém diferente, alguém que agora sabe por que os pássaros cantam. Dentro do avião, eu ainda era uma pedra no fundo de um rio; no ar, sou uma pedra que não deixará mais de rolar.

Dormindo ou acordado, aqui estou eu, a três mil e poucos pés de altitude, admirando cada vez mais este novo velho mundo.


Preparar Teletransporte

“Espero que não distorçam muito aquilo que ele tem estado a dizer”.

Sentado na cadeira do almirante, na minha cadeira, meditava sobre o planeta azul à minha frente. Era a primeira vez que interferíamos no destino de uma raça alienígena.

Foram duas décadas de discussões. Desde a criação da Constituição Universal, jamais havíamos revogado uma de suas leis, até que, enfim, ignoramos o Parágrafo Número Dois.

Os nove sistemas da Confederação haviam chegado a um acordo. Todos acharam que seria melhor fazer alguma coisa a deixá-los assim, tão perdidos. Não podíamos mais “não interferir”. Os governos opressores haviam se multiplicado, o direito de vingança continuava em vigor, a corrupção se havia generalizado, e a impunidade havia se transformado em sinônimo de poder. Infelizmente, porém, eu nunca saberia se aquela missão daria bons frutos. Ela havia seus riscos e havia sido categorizada como: “missão longo prazo”.

O universo – com suas milhões de estrelas e galáxias – decorava o fundo daquele palco, onde o ator principal representava o papel de sua vida.

- Almirante.

Eu não havia reparado na aproximação do meu imediato.

- Sim?
- Estamos prontos. Nosso homem chegou às coordenadas. – olhei para a sua barba branca e tentei confortar-me com a sua experiência.
- Estão todos a postos?
- Aguardamos apenas a sua presença.
- Obrigado. Eu já estou indo.
- Sim, senhor.

Ele me deu as costas e deixou a ponte de comando, através da porta automática.

Olhei de novo para o planeta azul e passei a ponta do meu polegar no meu pescoço, de lado a lado.

- Deus nos proteja.

Fui atrás do meu imediato, atravessei o corredor principal de nossa nave e entrei na sala de comunicação. Os presentes me olharam e sorriram, mas ninguém disse nada. Todos conheciam os riscos daquela missão.

- Senhoras, senhores. – disse e aproximei-me da única cadeira livre. Sentei-me.

O responsável pelas comunicações olhou de novo para mim e acenou a cabeça.

- Estamos prontos, senhor. – ele disse.

Respondi também com um gesto de cabeça e olhei para o grande monitor da sala.

- Estabelecer contato.

As luzes se apagaram e o monitor se iluminou. Na imagem, um homem no meio de várias árvores olhava para cima, como se pudesse nos ver. Era o nosso homem.

- Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice. Não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua.

Um silêncio cortou a sala e senti que várias cabeças viraram na minha direção. Aquelas eram as palavras-chaves para abortar missão.

- O que houve?
- As coisas se complicaram.
- Como assim?
- Judas irá me trair.
- Tem certeza?
- Ontem ele se encontrou com uma das pessoas que não tem gostado do que eu tenho dito e a conversa que eles tiveram ficou registrada durante horas na sua íris. Ele não conseguiu nem mesmo mais me encarar.

Ninguém saberia o que lhe dizer naquele momento, mas eu era a única pessoa que tinha a obrigação de fazê-lo.

- Você está com medo?
- Não, senhor. Eu não temo por mim; eu temo por ele.
- Entendo.

Novo silêncio.

- Jesus, escute bem aquilo que eu vou dizer. Nós temos trabalhado juntos por mais de vinte anos e você sabe tudo aquilo que eu penso. Nada mudou. Eu continuo a ser a mesma pessoa que você conheceu no Egito, quando você ainda era apenas um jovem. Mas, enfim, se você achar que tudo que nós temos feito vai além de suas capacidades, se você achar que esta missão não vale a pena, não se preocupe: eu estarei do seu lado. Você poderá para sempre contar comigo.

Eu não ouvi nenhum comentário ao redor de mim, mas senti que toda a minha tripulação teria se orgulhado das minhas palavras.

- Senhor?
- Sim?
- ...
- Diga, Jesus.
- Eu não irei decepcioná-lo.

A comunicação foi interrompida, e as luzes se acenderam. Todos os presentes olharam de novo para mim, mas eu deixei a sala de comunicações sem dizer mais nada.

Eu estava prestes a entrar de novo na ponte de comando quando o meu imediato me alcançou.

- Almirante.
- O que foi? – parei e olhei para ele.
- Não se preocupe. Eu tenho certeza de que a nossa missão será um sucesso.
- Eu espero bem que sim.
- Eu tenho certeza. Ele vai ficar bem.

Olhei para os lados e voltei a olhar para ele. Ele era a única pessoa naquela espaçonave que sabia que Jesus era meu filho, inseminado 33 anos antes no ventre de uma jovem chamada Maria.

- Gabriel...
- Sim?
- Alguma novidade sobre o teletransporte? Se alguma coisa a acontecer com ele, nós teremos no máximo quatro dias para trazê-lo de volta e reanimá-lo.

Gabriel sorriu.

- Ainda não, senhor, mas não se preocupe. Eu tenho me encarregado pessoalmente da sua reparação.
- Obrigado, amigo.

Ele colocou a mão no meu braço e se afastou, sem olhar para trás.

- Deus nos proteja. – murmurei.

Passei mais uma vez a ponta do meu polegar no meu pescoço, de lado a lado, e voltei para a ponte de comando.


Tiziano

Sou pai. Não carreguei meu bebê na barriga, não tive enjoos, não dormi mal durante os últimos meses, não conheci a dor do parto, mas, no último dia 14 de fevereiro, às duas e cinco da manhã, também dei à luz um filho, abraçado à minha esposa, em uma das mais privilegiadas maternidades do sul da França. De um lado, a cidade de Nice; do outro, a Baía dos Anjos. Havíamos imaginado aqueles momentos durante nove meses. Contudo, quando o querubim pousou, tomamos consciência de que havíamos sido capazes de projetar a cena, não o amor.

O amor incondicional é real; eu posso senti-lo, ele me toca. Não o amor incondicional que já estava aqui quando eu nasci – o amor filial –, tampouco o amor que tem crescido baseado em um respeito mútuo – o amor conjugal –, mas um amor novo para mim, que nasceu pronto quando eu já era homem, por alguém que não tinha feito nada para merecê-lo e por quem eu nunca mais deixaria de sentir o mesmo.

Como é possível amar alguém assim? Quem criou essa capacidade de amar? Não acho que a paternidade seja fundamental para a felicidade humana, mas acho que ela nos possibilita uma felicidade única.

Meu filho dorme. Acaricio a sua cabeça e também acaricio a cabeça de meu pai, por todas às vezes que eu não quis acariciá-la. Acaricio o meu filho como eu gostaria de ainda poder acariciar a cabeça de meu avô. Acaricio o meu filho como eu próprio gostaria de ser acariciado. Amo meu filho com o olhar, com meu gesto repetitivo, na minha posição inconfortável (desde que ele esteja confortável). Não quero que ele deseje ir a lugar algum, pelo menos enquanto não chegar a sua hora de crescer. Sei que não sou perfeito e que não serei um pai perfeito, mas farei tudo para que o meu filho diga que eu fui perfeito, tendo conhecido meus defeitos.

Será que ele vai gostar de xadrez? Será que ele vai gostar de tocar piano? Será que ele vai querer aprender japonês? Será que ele vai amar conhecer outras culturas? Ou será que ele vai ser mais cartesiano do que eu para que eu o possa amar e respeitar do mesmo jeito, apesar de nossas diferenças? Afinal, meu objetivo não será nunca que ele seja aquilo que eu gostaria de ter sido, mas que ele seja uma pessoa feliz e digna.

Que os homens desejem a sua amizade por saberem que ele é alguém de confiança. Que as mulheres procurem a sua companhia por saberem que ele as respeita. Que os mais ricos lhe deem oportunidades por saberem que ele é alguém corajoso e desinteressado. Que os pobres aceitem a sua ajuda por saberem que ele é alguém especial e humilde. Que ele respeite todas as religiões mesmo que decida não ter alguma. Que ele não faça diferença entre as cores e que respeite os perdedores, assim como eu desejo que ele aprenda a perder. E que ele seja mesmo um mestre na arte de perder, pois uma das maiores vitórias que um ser humano pode alcançar na vida é não ver alguma diferença entre ganhos e perdas, quando no final tudo é experiência.

Que ele chore e ria, que ele ame e perdoe, que ele durma tranquilo e corra com energia, que ele aprecie cada novo nascer do sol como se nunca o tivesse apreciado antes, pois a ele caberá viver a sua vida sem a encarar como se esta fosse a última, mas com a certeza de que cada oportunidade que temos é única.


Siberiano

Um Husky Siberiano puxava um rapaz pela trela. Era um cão forte, bonito e decidido, qualidades ausentes em seu dono. O rapaz deixava-se guiar por seu cão a cada vez que saiam para passear pelas ruas de Lisboa.

Ao atravessarem a Rua de São Bento, o rapaz viu que estava sendo levado em direção ao seu passado composto e teve a ideia de largar a trela, mas não o fez.

Ele tinha estado na Praia do Guincho durante toda a manhã, a olhar para a garota mais bonita de sua classe. Havia seis meses que estava apaixonado por ela, mas ainda não tinha tido a coragem de dirigir-lhe a palavra.

O rapaz quis evitar a jovem e subir as escadarias da Assembleia da República, puxou, infelizmente, a trela por cima da cabeça, o cão continuou a correr mais três passadas e o rapaz ficou estrangulado. Não pela trela, ainda bem, mas pela situação. Ao menos foi isso que deu a entender a voz que lhe saiu - ou não saiu - da garganta, na verdade, o grunhido, como se duas mãos estivessem a apertar-lhe o pescoço.

A jovem reconheceu-o e sorriu, mas o cão continuou a puxá-lo. Ele teve apenas tempo de acenar-lhe a cabeça e de sorrir-lhe também.

Mais dos passos e foi a vez de o rapaz surpreender o cão. Ele parou e segurou a trela com firmeza, a estrangular, desta vez sim, o cão.

– Eu vi-te hoje na praia. - ele disse para a jovem.
– Eu sei. - ela respondeu-lhe.

O cão ladrou e sentou-se no chão.


Apenas uma quimera

A noite ia avançada quando começou a chover. Os homens continuavam abraçados aos seus copos, e as mulheres insistiam em persignar-se, como se, depois de estarem durante anos engaioladas, tivessem a porta aberta e não se atrevessem mais a voar. Talvez soubessem. Talvez imaginassem. Qualquer voo que tivessem dado teria sido curto. Na taberna a porta abriu-se e Atla apareceu. Começou com um silêncio. Todos prenderam a respiração e olharam para a tempestade que ameaçava entrar. Seria uma quimera? Ninguém acreditou que a Atla pudesse estar viva. Um copo espatifou-se no chão, um velho caiu sentado, uma frase indecifrável, um grito, dois gritos. Todos os homens da taberna começaram então a festejar e a aproximar-se de Atla, cercando-a, tocando-a gentilmente no braço, com o medo que estavam de que o sonho se desfizesse no ar. Algumas portas adiante dali, as mulheres ouviram as ovações e entreolharam-se. Não precisavam ver Atla para saber o que aquele alvoroço significava. Começou com um silêncio. Todas suspiraram e olharam pela janela a tempestade que chegara. Fora uma quimera. Atla estava viva. Um copo espatifou-se no chão, uma velha levantou-se, uma frase indecifrável, um choro, dois choros. Todas as mulheres recomeçaram então a cuspir no chão e a chamar a Atla de puta.

- Onde você esteve? – perguntou-lhe o mais sábio dos pescadores.

- A esperar por vocês.

Quando o incêndio acabou, o tenente dos bombeiros desabafou com seu capitão.

Eles não sentiram nada. Quando a primeira bilha explodiu, todas as outras bilhas explodiram quase que simultaneamente. O que eu não entendo é por que estavam todos reunidos na taberna e naquela outra casa. Foi como se eles tivessem chegado a um comum acordo de que não podiam mais viver sem Atla.


Quente

Não sendo proprietária de um belo conjunto de guelras, não teve outra alternativa a não ser procurar o lugar onde havia deixado suas coisas, as boas e as más. Ela olhou para a areia e viu o nariz de seu marido voltado para ela, como a agulha de uma bússola a implicar com o norte.

A praia estava cheia e, infelizmente, não era hábito deles frequentar praias de nudismo, o que significava que teria de ultrapassar aquelas ondas, desviar-se de cinco ou seis pessoas e correr ainda quarenta metros, a fim de pegar sua toalha e proteger-se de todos os olhares que, com certeza, até lá, já estariam voltados para ela.

Um outro acontecimento, contudo, basculhou tudo mais uma vez. A trezentos metros dali, uma pessoa começou a afogar-se, o que atraiu a atenção de todas as pessoas da praia.

Ali estava a sua chance.

Ela nadou como uma atleta a disputar o ouro olímpico, aproveitou o embalo de uma onda para sair da água e, como uma concha que se fechava sobre si mesma, a olhar para os lados, ela correu em direcção ao seu marido.

Quarenta metros depois, ela caiu de joelhos em frente do senhor Barbarino e tentou puxar a toalha.

- Levanta da toalha! Vamos embora!

Seu marido parou de ler, fechou o livro e colocou-o dentro da bolsa dela. Ele suspirou.

- Tu és mesmo ridícula.
- Podemos discutir em casa? Levanta da toalha!
- Precisavas fazer isso?
- Por favor?

O senhor Barbarino passou a mão na cara e espalhou o seu suor como se tratasse do vinho prometido, a tentar acalmar-se.

- Tu tens de parar com essa mania. Todas as vezes em que discutimos, tu fazes alguma coisa para desagradar-me.
- Marco, levanta desta toalha!

Ele suspirou mais uma vez, pegou seus óculos quebrados e levantou-se. Ela puxou a toalha para si e enrolou-a em volta do seu corpo.

- Se eu pudesse dirigir, eu teria partido sem ti. - ele disse.
- E quem teria feito o teu jantar?

Ela calçou suas sandálias e pegou sua bolsa.

- Podemos ir? - ela pegou a mão dele e pousou-a sobre o seu ombro.
- O que é que tu pensas?


Sem saída

Ele olhou de novo para o seu relógio de bolso e verificou que o tempo insistia em trabalhar, indiferente às imagens que ele seguia dentro das seis molduras daquele vagão - era a terceira vez que ele contava as janelas. Apenas vinte minutos haviam passado, mas o mundo parecia terminar ali, para sempre. Sua esposa também permanecia imóvel, sentada à sua frente. Ela escondia seus seios com o passaporte e segurava-o como se tivesse nas mãos um escudo, com o olhar a vagar por todos os lugares daquela guerra, menos pelos olhos dele.

Eles haviam chegado à fronteira depois de ela ter dito a sua última palavra, que fora quase imperceptível, e, agora, esperavam, sem terem mais o que dizer.

Três soldados alemães entraram no vagão e iniciaram a verificar todos os documentos, enquanto um outro soldado ficou à porta com um cão a ladrar. Quando os três militares chegaram diante do casal, eles entreolharam-se, fizeram a saudação nazista, e partiram. Ele olhou de novo para o seu relógio, procurou em vão o olhar de sua esposa, e o trem voltou a andar. A Alemanha seguia a conquistar toda a Europa e o norte da África, e ele não tinha mais para onde ir.


Clímax

(primeiro clímax)

− Você escolhe: ajudar-me ou voltar para a prisão.
− Mas o que o senhor ganhará com isso?
− O seguro pagar-me-á pela casa e pelo carro e retirar-me-á do buraco financeiro no qual minha esposa me fez cair.
− Não sei...
− Não seja estúpido. Ou chamarei imediatamente a polícia.
− ...
− Bastará roubar a minha casa e levar o meu carro, o que lhe dará uma chance de sumir e algum dinheiro para recomeçar a sua vida. Também teremos de simular uma agressão. Minha esposa e a polícia não poderão imaginar nem por um segundo de que tudo não passara de uma simulação.
− ...
− Então?! Aceita?
− Como se eu tivesse escolha...
− Ótimo! Nos próximos dias, mantenha-se escondido. Eu tragar-lhe-ei comida e dar-lhe-ei minhas instruções.

"Imbecil. Assim que você partir, eu matarei minha esposa e chamarei a polícia. Todos os cães do país estarão no seu encalço, e eu voltarei ao regaço de Ana de uma vez por todas, só que dessa vez rico."

(cena de pacificação doméstica)

Os dias que se seguiram foram os dias mais felizes da vida de casada da senhora Aires. Com o intuito de fazê-la esquecer-se do barulho da cave, o Senhor Aires passou a tratá-la com mimo e a fazer-lhe todos os caprichos. Além disso, ele procurou respeitar as rotinas da casa com um rigor religioso, a fim de não levantar as suspeitas de algum vizinho: o casal continuou a cortar a relva aos sábados, a ver televisão até tarde e a almoçar no jardim.

O senhor Aires comprou, um dia, para a senhora Aires, um perfume francês, o que foi muito bem recebido por ela e lhe extraiu algumas lágrimas.

− Eu amo-te. - ela disse um dia ao seu marido.
− Eu também amo-te. - ele mentiu a sua esposa naquele dia.

As noites passaram a nanar os dias.

Os dias passaram a acordar com doçura as noites.

E, quando faltava apenas uma semana para o crime, a senhora Aires desceu até a cave para buscar um vinho.

(segundo clímax)

− Quem é você? - ela encostou-se na escada e levou a mão até a boca.
− Calma. Eu não lhe vou fazer mal.
− O que você está a fazer em minha casa?
− O seu marido sabe que eu estou aqui.
− Como assim: o meu marido sabe que eu estou aqui?! Eu vou chamar a polícia!
− Não! Por favor, não! Eu prometi ao seu marido que eu iria ajudá-lo.
− Ajudá-lo como?
− A roubar a sua casa para que o seguro lhes pague uma indenização.
− Meu parido pediu-lhe para que você fizesse isso?
− Pediu-me. Com a promessa de que não chamaria a polícia. Ele disse que vocês estavam precisando de dinheiro e que vocês não tinham outra opção para sair da crise financeira em que vocês estão.
− Meu caro...
− Sim, madame?
− Eu sou absurdamente rica. O meu marido não tem a menor necessidade de uma indenização do seguro... a não ser que...
− O que foi?
− Ah...
− O que foi, madame?
− Ele quase convenceu-me...
− Quem?
− Escute.
− Sim?
− Você gostaria de ganhar alguns milhões? Adiantados?


Dia D

"Omaha Beach, França. O dia mais longo. Uma praia. Coisas assim haviam sido feitas para surfistas. Ondas e falésias a dançarem uma valsa eterna. A França diante de nós e a Inglaterra atrás, como juízes desse concurso de dança. O Canal da Mancha. Um conflito que ficará para a história. Quando finalmente toquei a areia, soube que não poderia mais voltar. Molhado, procurei abrigo. Meus irmãos tinham os mesmos objetivos. Jonh e Matt brincando de esconde-esconde com seus braços. Não emitiam som. Um alemão lançando disparos de boas-vindas para mim. Projéteis que me acompanhariam para o resto da vida. O sargento de minha companhia a gritar, a tentar conduzir uma sinfonia de homens, com pautas musicais a cruzarem o ar, a água e a se afundarem na carne. Quase sete horas. Desta vez foi um obus: BUM. Penso que fiquei velho ali. Eu a lembrar de minha mãe, longe, do Oklahoma, dos cavalos, do pão saindo do forno. O obus a cantar, como um tenor, a partitura daquilo que eu poderia esperar dali para frente. Nós dois a pensar a mesma coisa: ficar vivo."


Tabuleiro

"Bom dia, padre."
"Bom dia, meu filho. Quem ganhou a partida?"
"A partida ainda não acabou, padre."

O bispo aproximou-se, fez uma prece e colocou a mão sobre a cabeça de Pedro Quevedo, quem, apesar de sempre ter sido capaz de jogar sem um tabuleiro, havia preferido acompanhar todos os movimentos. Escolhera as peças brancas ao lugar das pretas.

Aprendera a jogar xadrez com seu avô. Não era pessoa para participar de campeonatos; contudo, uma vez, com apenas doze anos de idade, quase vencera o campeão de Lisboa, um gajo que não lhe quisera dar uma segunda oportunidade. Na altura, Pedro ainda não compreendia a necessidade de, às vezes, termos de sacrificar uma peça para ganharmos a partida; recuara a torre para não perdê-la e dera a chance para o ex-campeão de vencer.

Um cabo colocou um cigarro em sua boca, e ele deu três tragadas rápidas e uma longa, antes de o cabo pegar de volta o cigarro – "Obrigado", disse Pedro – e se afastar.

Ele enviou a fumaça de novo para o pulmão através do nariz e depois assoprou-a para longe, com pequenos elos de fumaça.

Um sargento a cavalo entrou no pátio pelo grande portão, parou ao lado do jovem major e desceu de sua montaria, a fazer-lhe uma rápida continência e a entregar-lhe um papel.

A fileira de oito soldados que se encontrava alinhada a vinte metros de Pedro Quevedo aguardava a próxima ordem.

"Major!", gritou Pedro.

O jovem major, que havia terminado de ler a mensagem, sorriu-lhe. Ele se tinha arrependido de seu último movimento mesmo antes de ter ido dormir.

"Cavalo para a quinta casa do rei!", devolveu o sorriso Pedro, "Cheque!"


Tabuleiro II

Sequência A2

O bispo aproximou-se, fez uma prece e colocou a mão sobre a cabeça do jovem major, que não parava de imaginar o seu amigo a escorrer pela janela.

"Pedro..."

Ele fechou os olhos e viu Pedro Quevedo a mover o cavalo para a quinta casa do rei. "Cheque." Os oito rifles paralelos ao horizonte. O cavalo a avançar. Um relâmpago a iluminar o aposento. O corpo cravado de balas. A torre a cair. "Que tal uma partida, major?" Mas não jogara limpo e encurralara-o na beirada do tabuleiro, antes de perder.

Sequência B2

Silêncio. O bispo recolheu a mão e fez o sinal da cruz.

Talvez os erros de cada jogador sejam friamente calculados por um ponto de vista terceiro; talvez uma multidão invisível estivesse a espreitar aquele quarto a partir dos jardins daquela casa; talvez, na verdade, estivessem todos mortos e a única pessoa realmente viva ali, agora, fosse ele.

Sequência C2

Os campos que tantas vezes testemunharam seus passos foram bombardeados, a casa onde crescera e aprendera a amar fora queimada, e o lago onde aprendera a nadar secara.

"Pedro!"

O jovem major arregalou os olhos e levou consigo suas respostas.

Sequência A3

O bispo aproximou-se, fez uma prece e colocou a mão sobre a cabeça do ex-comando Armindo Panguila Pombeiro, que não parava de pensar no jovem major.

"Saia daqui.", disse Armindo.

O primeiro disparo que dera. O único disparo que dera. Um abraço por trinta moedas.

O sangue brotara-lhe do baixa ventre como uma fonte sem fim. Seus olhares não se abandonaram, suas respirações tornaram-se uníssonas, o medo tomara conta de ambos. "Não morra!", disse ao jovem major, mas, àquela última ordem, desacatou. Apenas abraçaram-se com força, como náufragos que se tentavam agarrar a uma boia.

Sequência B3

Perdeu o amigo e saiu a correr em direção a lugar algum, quando ouviu o dispositivo a se armar. Perdeu uns dedos. Não tinha para onde ir. Perdeu uma perna. Não tinha o que ver. Perdeu um olho.

"Eu não viverei com um aleijado". Perdeu a mulher.

Sequência C3

Não seria difícil de encontrar o jovem major. Teriam sido grandes amigos e ainda poderiam sê-lo. Com o frio cano da pistola a espremer sua língua, Armindo imaginou que seria até capaz de encontrar o resto de seu corpo, sua mulher, uma paz no outro mundo. Abraçaria de novo o major, marcaria o momento com um sorriso, e seriam irmãos de sangue para sempre, daquele mesmo sangue infinito que não deixava de correr pelos seus últimos dedos, a ajudar-lhe a puxar o gatilho.

O segundo e último disparo que dera.


Tabuleiro III

Sequência A2

O bispo aproximou-se, fez uma prece e colocou a mão sobre a cabeça do jovem major, que não parava de imaginar o seu amigo a escorrer pela janela.

"Pedro..."

Ele fechou os olhos e viu Pedro Quevedo a mover o cavalo para a quinta casa do rei. "Cheque." Os oito rifles paralelos ao horizonte. O cavalo a avançar. Um relâmpago a iluminar o aposento. O corpo cravado de balas. A torre a cair. "Que tal uma partida, major?" Mas não jogara limpo e encurralara-o na beirada do tabuleiro, antes de perder.

Sequência B2

Silêncio. O bispo recolheu a mão e fez o sinal da cruz.

Talvez os erros de cada jogador sejam friamente calculados por um ponto de vista terceiro; talvez uma multidão invisível estivesse a espreitar aquele quarto a partir dos jardins daquela casa; talvez, na verdade, estivessem todos mortos e a única pessoa realmente viva ali, agora, fosse ele.

Sequência C2

Os campos que tantas vezes testemunharam seus passos foram bombardeados, a casa onde crescera e aprendera a amar fora queimada, e o lago onde aprendera a nadar secara.

"Pedro!"

O jovem major arregalou os olhos e levou consigo suas respostas.

Sequência A3

O bispo aproximou-se, fez uma prece e colocou a mão sobre a cabeça do ex-comando Armindo Panguila Pombeiro, que não parava de pensar no jovem major.

"Saia daqui.", disse Armindo.

O primeiro disparo que dera. O único disparo que dera. Um abraço por trinta moedas.

O sangue brotara-lhe do baixa ventre como uma fonte sem fim. Seus olhares não se abandonaram, suas respirações tornaram-se uníssonas, o medo tomara conta de ambos. "Não morra!", disse ao jovem major, mas, àquela última ordem, desacatou. Apenas abraçaram-se com força, como náufragos que se tentavam agarrar a uma boia.

Sequência B3

Perdeu o amigo e saiu a correr em direção a lugar algum, quando ouviu o dispositivo a se armar. Perdeu uns dedos. Não tinha para onde ir. Perdeu uma perna. Não tinha o que ver. Perdeu um olho.

"Eu não viverei com um aleijado". Perdeu a mulher.

Sequência C3

Não seria difícil de encontrar o jovem major. Teriam sido grandes amigos e ainda poderiam sê-lo. Com o frio cano da pistola a espremer sua língua, Armindo imaginou que seria até capaz de encontrar o resto de seu corpo, sua mulher, uma paz no outro mundo. Abraçaria de novo o major, marcaria o momento com um sorriso, e seriam irmãos de sangue para sempre, daquele mesmo sangue infinito que não deixava de correr pelos seus últimos dedos, a ajudar-lhe a puxar o gatilho.

O segundo e último disparo que dera.


D5TR

Ela se sentou à mesa do fundo e pediu um chope. Eu também levantei o dedo.
Jamais, em toda a minha vida, havia visto uma mulher como ela.

Ela sorriu, e eu avancei o peão do bispo do rei. Eu sorri também.
Ela avançou o peão do rei, e eu avancei o peão do bispo do rei duas casas.
Eu inclinei a cabeça, ela corou, e eu sorri novamente.
Ela retornou a inclinação e moveu a rainha para a quinta casa da torre do rei.
Xeque-mate.
E eu fiquei ali, estático, apaixonado, vencido. Uma vitória sem mortes.
Meu reino passou a ser seu, meu exército a lutar ao seu lado.


A mão de Deus é, em fato, francesa

Meu pai era descendente de italianos e de sírios (ou de libaneses; nem ele sabia). Minha mãe é descendente de portugueses e de espanhóis. Meu pai nasceu no Mato Grosso do Sul, e minha mãe em Minas. Eu nasci no Rio de Janeiro, em 1971 e, em 98, parti do Brasil. Vivi seis anos em Lisboa, um pouco na Itália, dois anos na Suíça e estou há mais de um ano em Paris. Tirei a nacionalidade portuguesa, minha esposa deu-me o direito à nacionalidade italiana e, se eu vivesse cinco anos na Suíça, o que eu poderia fazer, se o quisesse, teria a nacionalidade helvética. Vou dizer que sou carioca? Que sou mesmo brasileiro? Nem pensar. Não posso. Sou um cidadão do mundo, não um documento, apesar de que não posso viver sem meu pão de queijo.

Sofro pelas misérias do Brasil e alegro-me pelas conquistas verde-amarelas, mas também lamento a fome na África e regozijo-me pelas vitórias francesas. Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mas sejam eles, esses direitos, na Europa, na África ou na Venezuela. Admiro o virtuosismo na capoeira, amo as esculturas de Rodin e lambo os dedos ao comer um escargô. Sou viciado em croissant, acho que ele seria melhor com recheio de catupiry e fico de boca aberta ao ouvir um CD da Edith ou da Elis.

Elis Piaf / Edith Regina. Johnny Hallyday deveria ter feito músicas com o Raul Seixas. Godard deveria ter dirigido um filme com Cassilda Becker. Victor Hugo contado a história de Tiradentes, e Delacroix pintado uma cena de Umbanda. O Cristo Redentor, afinal, tem a cabeça e as mãos esculpidas na França.

Mas nada do que eu diga aqui deve ser considerado como uma verdade absoluta. Um escritor não possui verdades absolutas, ele possui apenas um ponto de vista, ele é um prisma, um ser que transforma aquilo que viu e sentiu no cristal de suas experiências pessoais e que escreve suas conclusões e dúvidas para as outras pessoas; e, se ele realmente amou a primeira vez em que fez isso, nunca mais conseguiu parar. Foi assim comigo, e é para isso que estou aqui, para compartilhar esse amor com vocês.

Pretendo falar sobre a atualidade, sobre movimentos culturais, sobre filmes, livros, sobre a minha vida, a vida dos outros (não muito mal) e sobre ideias que nascem na minha cabeça prontas para partirem. E, claro, também espero ler aquilo que vocês têm a dizer, nessa minha tentativa contínua de purificar o vidro do qual sou feito.

Enfim, agradeço a oportunidade de estar aqui, participando desse já reconhecido veículo de comunicação. Espero mostrar-me à altura da confiança que me depositaram e encontrar novos e duradouros amigos.

Vamos a isto... 


Tragédia no Salão do Livro

Apresentações e agradecimentos feitos, essa tarefa pareceu-me mais difícil do que eu antes pensei. Não quero chegar aqui e apenas preencher um espaço vazio, a coluna vazia do escritor Carretoni, mas, sim, sentir que estamos indo na boa direção. Para onde exatamente vamos, não sei e sei que nunca chegaremos lá, mas, apesar de conscientes de que a perfeição continuará fugindo de nossos dedos, não poderemos jamais parar de caminhar.

Dia 16 de maio vi um filme encantador. Ele chamava-se "O brasileiro que vivia em Paris e que foi ao Salão do Livro da América Latina com a esperança de ver um de seus escritores preferidos, Luís Fernando Veríssimo, e que não chegou a tempo." O final do filme não foi tão encantador quanto o resto, mas me portou uma nova lição.

Foi um problema de horas. Estava ciceroneando visitas de Portugal e na correria anotei o horário errado. Não anotei, quis decorá-lo e confundi-me com o horário da Adriana Lisboa. Voilá. Veríssimo já havia partido. Contudo, por quê? Por que me ter sentido tão frustrado por não ter conseguido encontrá-lo? O que eu lhe teria dito, afinal, se o tivesse visto?

Nada. Absolutamente nada. Ter-lhe-ia sorrido, dito meu nome para que o escrevesse numa das primeiras páginas de um de seus livros e teria desejado ser contaminado por seu talento, através de sua áurea, de seus átomos, como uma gripe ABC que é transmitida apenas entre escritores.

- Vá trabalhar, meu jovem. - é o que ele me teria dito.

As bancadas estavam cheias de livros em português, em espanhol e em francês. Procurei os meus, mas não os encontrei. Os copos estavam prontos para os coquetéis, as línguas presentes me lembravam de casa, e Adriana Lisboa estava de pé, cercada. Esperei que ela tivesse a sabedoria necessária para reconhecer os amigos e admiradores entre os aproveitadores, e isso deve ter sido um tipo de compaixão entre cariocas - não entre maçons - mesmo que eu já tenha dito não me considerar como tal.

José Muñoz estava sentado dedicando livros, Sébastien Lapaque e Carlos Salem também. E eu lá, com um vazio no peito, após ter perdido a oportunidade única de ver um de meus gurus literários.

Demorei duas horas para esquecer o ocorrido. Ainda bem. Jovem, teria demorado meses. A vida continuou, e eu tomei mais consciência de que eu tenho mesmo é de escrever. Esse é o caminho que me levará até a perfeição inalcançável que busco, não aquele no qual preciso ter um contato imediato com um pronome pessoal do primeiro grau.

- Obrigado, Luís.

Todavia, fica aqui exposta minha admiração.

Enfim, era também a Noite dos Museus, e fui ver a exposição de fotografias controversas na Biblioteca Nacional. Muito interessante, por sinal. Antes, havia pensado que encontraria apenas fotos chocantes, só que, na verdade, foi uma amostra feita com fotos que marcaram a história (se alguém ainda quiser vê-las, aconselho uma visita ao museu da fotografia em Lausanne, na Suíça, pois muitas fotos vieram de lá).

Mas, se, por acaso, você, Luís, estiver lendo esse texto, por favor, entre em contato comigo. Na próxima vez que vier a Paris, telefone-me, apareça na minha porta, aborde-me na rua, grite, pois, mesmo sabendo que você não precisa de alguém para lhe oferecer um Bourbon no Harry's Bar, eu também sou gaúcho e prometo não o vampirizar. Sei que tudo que preciso está dentro de mim, mas penso que você deve ser um cara interessante pacas pra conversar.

Tudo bem. Nem tão pouco sou gaúcho, mas e daí? 


AF447 Rio-Paris

Esse não é o lugar para discutir sobre as suposições que estão fazendo, sobre a recuperação dos corpos, a busca aos destroços, colocar a lista de passageiros e da tripulação, disponibilizar fotos ou contar a história de algum comissário de bordo ou de alguma aeromoça em particular. Se você veio até aqui à procura de informações ou de algum sensacionalismo, veio ao lugar errado. Esse espaço será utilizado hoje para fazer uma homenagem, para abraçar através das palavras aqueles que partiram e aqueles que ficaram, certo de que todos nós fomos atingidos, todos nós estamos ligados, e ninguém está livre das alegrias como das desgraças da vida.

Sei que é difícil compreender e achar uma lógica para um acidente de tamanhas proporções. Não o tentarei explicar. Sei que é difícil acalentar uma criança que ficou órfã, uma mulher que ficou viúva e uma mãe que está desesperada, não há nada pior do que perder um filho, mas, ao mesmo tempo, me permitam dizer o quanto acredito que, no meio de todo este aparente caos, tudo tem um sentido e que ninguém está desamparado.

A fé é um dom que não é dado a todos, e sinto-me abençoado por tê-la. Não pertenço a alguma igreja, a alguma crença, não tenho dogmas, apenas vícios, mas não acredito que tudo isso que tenho dentro da cabeça e do coração faça parte de um mero acaso. Acredito que "eles" estão bem, que nós também ficaremos bem, que todos nós nos reencontraremos lá e que voltaremos cá.

Àqueles que estavam no voo AF447 Rio-Paris e àqueles que não estavam no voo AF447 Rio-Paris:

- Comandante!
- Sim, marujo.
- Acabamos de aterrissar.
- Ótimo! Recolha as turbinas! Sabe onde estamos?
- No fundo do mar!
- Exatamente! Avise a todos que o voo correu como planejado.
- Senhor...
- Sim?
- A tripulação e os passageiros...
- O que têm eles?
- Eles estão à espera do senhor. Eles querem agradecê-lo.
- Ora, marujo. Diga-lhes que eu apenas fiz o meu trabalho...
- Eles insistem.
- Bem, se é assim, diga-lhes que eu irei ter com eles.
- Sim, senhor.
- E, marujo?
- Sim, comandante?
- Bom trabalho.
- Obrigado, comandante.

O avião abriu as portas e todos saíram do aparelho. Jamais haviam visto país tão belo. Em fato, jamais alguém havia tido a oportunidade de ver tal país. E, observados com curiosidade pelos peixes e baleias que se aproximaram, homens, mulheres e crianças começaram a bailar ao som das estrelas do mar.

- Olhem! - gritou um - Um carrossel de cavalos-marinhos!

"O azul profundo do céu correspondia ao verde fundo do oceano."
(Os Trabalhadores do Mar, Victor Hugo)


Classe, de Blandine Keller

Fui ao correio mais próximo de meu apartamento e, na saída, diante de um trabalho de colagem, fiquei sabendo que Émile Zola, Alexandre Dumas (pai e filho), Stendhal e o poeta André Chenier haviam sido meus vizinhos e que o jornal Aurore havia publicado o famoso discurso "J'accuse" a poucos metros de meu lar.

Não sou pessoa de puxar conversa com estranhos, mas, como uma senhora lia comigo aquele cartaz, deixei escapar que eu também era um escritor do segundo arrondissement, colocando-me com audácia ao lado dessas grandes referências da literatura francesa.

- Eu também - confiou-me ela - todavia, eu habito no décimo.
- Então, volte para o seu bairro!

Brincadeira, não foi isso que eu lhe disse.

Lá estávamos nós reunidos, a família Dumas, Zola, Stendhal, Chenier e nós dois, para eu começar a falar sobre o meu último livro e para ela começar a explicar-me um pouco sobre a sua mais importante obra: Classe, que virou peça de teatro e a qual peguei emprestado dois dias depois na biblioteca de meu quarteirão, graças à curiosidade que seus comentários me inspiraram.

Entre os lugares onde apresentaram a peça está Lausanne, cidade onde morei.

Que surpresa! Imaginando encontrar apenas um trabalho de caráter psicológico, descobri um texto acessível e com uma escritura de romper fronteiras; largos espaços saíram vitoriosos da feroz batalha que travaram contra as esperadas pontuações. Classe, de Blandine Keller, uma aula de literatura para alunos de um sexto ano contada como uma sessão de jazz inesperada, uma partitura sem barras, tendo como principal melodia a Odisseia de Ulisses, a navegar tão livre quanto a mente de uma criança, com apenas uma regra: respeitar as normas de comportamento dentro de uma sala de aula.

É impossível citar tudo o que um livro quer dizer ou afirmar qual foi a principal intenção de seu autor, mas poderei sempre dizer aquilo que eu senti ao lê-lo, como um ciclope imperfeito, cujo único olho será sempre apenas um resultado de minha visão particular do mundo.

Blandine Keller provou-me mais uma vez que há vida além do mundo que conhecemos, fora da fortaleza troiana das dispendiosas publicidades e das grandes distribuições. Talvez seja até mesmo uma boa ideia, aliás, esconder o seu livro dentro de um Cavalo de Troia e esperar que ele seja levado para dentro de alguma editora, que esse cavalo pareça inofensivo, para que as pessoas tenham a oportunidade de conhecer essa história sem a necessidade de um encontro casual dentro de uma agência do correio. Depois, o livro fará o resto.



Bye Bye Johnny

Eis o inverno de nosso contentamento...

Após cinquenta anos de carreira, Johnny Hallyday despediu-se dos palcos.

Roberto Carlos comemorou meio século de Jovem Guarda.

Triste por ver que a festa estava chegando ao fim, Michael Jackson morreu, aos cinquenta anos de idade.

Não vi o Johnny nem o Rei, mas vi os fogos de artifício a partir da ponte Richard, digo, Alexandre III. Meia hora de cores e explosões que partiram da própria torre e também do meu bolso, para comemorarem cento e vinte anos com estilo e com uma pergunta musical na cabeça de todos: quem virá a seguir, para ocupar o lugar vazio?

The rock is dead e the dream is over. Henri Salvador, o avô da Bossa Nova, assistiu a tudo isso a partir do Père-Lachaise, e estamos ficando com demasiado espaço livre no disco do nosso computador. E não adianta comprar CD original, não adianta nem mesmo fazer download ilegal, o passado é conhecido, e o futuro eu quero ver, pois fazer o Moonwalker não vai trazer de volta o que tivemos de bom nos últimos 50 anos.

E que não venha alguém tentando copiar os ídolos de até então, que não apareça um gajo à minha porta com as mesmas três notas, escalas, ou com pequenas rimas. Nas rádios, é raro escutar algo revolucionário, e continuamos precisando de um som novo, de algo que rompa com tudo e que esteja preocupado em dizer que Liberdade, Igualdade e Fraternidade não é apenas um slogan para se enforcar a segunda-feira.

Il suffira d'une étincelle
D'un mot d'amour pour
Allumer le feu
Allumer le feu
Et faire danser les diables et les dieux
Allumer le feu
Allumer le feu

Bastará uma faísca
Uma palavra de amor para
Acender o fogo
Acender o fogo
E fazer dançar os diabos e os deuses
Acender o fogo
Acender o fogo

Aliás, o Rock nunca foi contra o sistema, ele sempre foi a sua criança mimada. Contudo, deixando hoje a adolescência, não temos nem mais necessidade das editoras: a internet está aí, os sites para disponibilizar vídeos estão aí, o público tem escolhido aquilo que as gravadoras querem e não mais o contrário.

De qualquer forma, tendo gostado ou não de suas canções, indiferente às raízes de suas músicas, à máquina comercial, obrigado Roberto Carlos Braga e Jean-Philippe Smet. Obrigado Michael. Obrigado Henri. Vocês foram grandes. Agora, que venham os próximos.
Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno

E que tudo mais vá pro inferno 


O Pequeno Carioca

Pela terceira vez, recebi uma dessas caixas de presente para escolher um restaurante onde comer e confesso que me senti receoso. De graça, tudo é bom, mas calma lá. Nas outras duas vezes, depois de encontrar estabelecimentos que não quiseram aceitar o meu vale, de ver caras que não se mostraram empolgadas com a ideia de eu pagar a conta com um cheque-presente, acabei por me sentir pedindo algum favor. Como funcionam as negociações de publicidade desses produtos, não sei, não sei nem tão pouco o quanto de percentagem que cada um recebe por cada troca; no final, com minhas escolhas, acabei sendo bem servido, mas não foi para falar sobre esse assunto que comecei a escrever esse texto.

Desta vez, tinha como opções diversas atividades e, diante das hipóteses de guiar uma Ferrari, de fazer um curso de mergulho no lago Léman, de algumas aventuras menos emocionantes e de outras mais relaxantes, acabei decidindo por um dos sonhos mais antigos do homem: receber um batismo como piloto.

Você é uma dessas pessoas que adoram consoles de jogo? Você comprou um daqueles joysticks para colocar na frente do seu computador? Para se sentir realmente pilotando um caça, um Boeing? Esqueça! O que vivi lá em cima não tem nada a ver com a sua poltrona. Não tem nada a ver com a montanha-russa espacial da Disney, a qual eu por acaso também vi lá de cima. Eu estou falando aqui de pilotar um avião, cara! Pilotar um avião! Já havia feito um curso de paraquedismo em Évora, em Portugal, mas controlar um Cesna foi uma sensação à parte.

Vai ser sopa, antecipei. Chego lá em cima, tiro umas fotos e o instrutor me deixa sentir as turbulências durante uns cinco minutos.

Lognes. Fui de RER e andei mais ou menos dois quilômetros e meio.

- Bem - o instrutor iniciou o briefing - quando o ponteiro estiver a sessenta nós por hora, você puxa o manche suavemente para trás. Você deve mantê-lo um pouco puxado até alcançarmos mais ou menos os dois mil pés de altitude. Depois, você contorna a Disneylândia e retorna para pousar o avião.

"Esse senhor aqui sabe que a primeira vez que eu faço isso?"

Jean-Claude, à primeira vista, pareceu-me carrancudo, mas, após abandonarmos a pista, compreendi que o motivo de sua aparente distância era que EU ainda vivia em outro mundo. Eu ainda era um não iniciado. Ele mudou de semblante comigo após meus primeiros gritos de euforia e sorriu de meus comentários de uma forma que me fez parecer que nós estávamos no lugar mais seguro do mundo, apesar da inexperiência da pessoa que estava teoricamente pilotando o avião.

O monomotor sacudiu um pouco por causa da turbulência, os fones de ouvido distanciaram-me do ronco do motor. Olhei para baixo e assisti terrenos e casas desfilando, olhei para o horizonte e vi a torre Eiffel ao fundo, senti um frio no estômago a cada massa de ar quente que encontramos e cogitei a possibilidade de restituir-lhe o comando. Já estava de bom tamanho. Resisti, voei em paralelo a uma autoestrada, segui a mesma, tive de ter alguma atenção por causa de um helicóptero que estava levantando voo, realinhei o aparelho, admirei o castelo da Cinderela, pousei.

- Merci, Santo Exupéry! - disse, arrancando-lhe mais um sorriso.

Claro que Jean-Claude controlou o rádio, os pedais e deu o toque de mestre na hora do pouso, o que muito agradeci.

Dura só o tempo de espera de uma montanha russa, mas sai menos caro do que comprar um videogame. Assim, com ou sem esses cheques-presentes, tente, eu recomendo. Ouse dedicar dois anos de sua vida para tirar uma licença como piloto se esse for o seu sonho, ou faça-o apenas uma vez para viver essa experiência. Existe algo lá em cima que nos recorda o quanto a vida é passageira e que muda a perspectiva que temos de nossa existência. E, se essa aventura nos permite ter o ponto de vista que um dia o Santos Dumont teve de Paris, melhor ainda. 


As Vinhas de Paris

Foi um verão maravilhoso, e tenho de aceitar que ele terminou. Tenho de voltar a escrever. Não é que eu tenha algo contra escrever durante o bom tempo, pelo contrário, adoro escrever em uma esplanada, mas tive meses tão plenos que me esvaziei por completo. Dei tudo de mim. Não para a literatura diretamente, mas para a vida, para a mesma vida que me ajuda a escrever quando o corpo cansa e eu me sento de novo na frente de uma folha em branco.

Se não estou escrevendo, estou vivendo, se não vivo, não posso escrever.

Amei rever as areias de Paris Plage.
Andei de Velib.
Fiz piquenique na beirada do rio Sena.
Admirei o interior do Hotel de Ville no dia do patrimônio.
Perdi-me durante a Nuit Blanche.
Bateau Mouche de dia. Bateau Mouche de noite.

Sábado, fomos a Montmartre ajudá-los a dar um fim a toda aquela vinha.

A noite estava agradável, e todas as pessoas resolveram ir conosco. A Rua Azaïs transformou-se em um vagão de metrô na hora do rush. Mas valeu a pena. Sempre vale. Tomamos um vinho e comemos um presunto cru. Vimos os fogos de artifício explodindo a poucos metros de nós e um cachorro querendo fugir. Seu dono tentava em vão acalmá-lo. Também vimos uma estrangeira que se perdeu de sua companhia e um jovem a entornar vinho sobre outras pessoas. Vimos ostras, enchidos, queijos e doces. Vimos toda uma vida que começa a fazer parte daquilo que penso que é Paris. Paris é mesmo uma festa.

Também estudei durante o verão: Java, Inglês, ASP, Grego, JavaScript e outros idiomas que podem abrir meus horizontes, tanto os pessoais quanto os profissionais. Recebi minha mãe por um mês e meio e recepcionei meu sobrinho que veio estudar na universidade Paris Huit: teatro. Andei, andamos muito, pois minha mãe marcou em um mapa tudo o que caminhamos e Paris se transformou em um emaranhado de linhas roxas e vermelhas. Acho que ela conseguiu partir daqui conhecendo Paris mais do que eu, apesar de ter sido eu a ficar com a cara de quem estava mais satisfeito. Aconchego de mãe continua sendo o melhor refresco.

Voltei a fazer teatro e voluntariei-me para dar aulas de computador no Pari's de Faubourgs.

Também conheci Provins e estive na Suíça, quando comi em um restaurante gastronômico chamado Trois Tours. Sete pratos divinos e muito caro, o que agradeço a minha sogrinha.

E também tive meu lado entretenimento: vi a final nacional do Dîner Presque Parfait e alegrei-me com a vitória do Gregory. Vi clássicos e menos clássicos do cinema francês e ando vendo Koh-lanta, o meu substituto para o Pekin Express.

Quando fiz tudo isso? Nos últimos dois meses, durante minha ausência. Quero viver para a literatura, mas a literatura não é apenas escrever e tenho de ganhar a vida. Tenho de terminar meus próximos livros e não tenho todo o tempo disponível que gostaria. Além disso, dependo das correções finais (português para o francês) de minha esposa, quem também anda trabalhando muito e a quem eu muito agradeço por todo o esforço.

E não sei se estarei aqui no próximo verão, nunca sabemos o que iremos beber amanhã, mas posso dizer que vivo aqui mil anos por dia, e que Paris já faz parte de mim, e que já tenho feito ótimas colheitas.

Paris, je t'aime. Santé.


A Água da Vida

- Meu filho – meu pai disse-me enquanto amarrava a ponta de uma corda no gargalo de uma garrafa – aqui dentro você encontrará aquilo de que você precisa.
- Eu...
- Deixe-me terminar.

Abaixei o braço e segui seus movimentos, com a esperança de que aquilo fosse brincadeira. Não era.

- Aqui está o antes, o agora e o depois. Aqui está a sua paz.
- Eu... – era impossível resistir. Meus lábios estavam secos.
- Escute.

Meu pai puxou a corda com força. A garrafa estava bem atacada.

- Sei que isto pode estar-lhe parecendo incompreensível, mas confie em mim. Você é a pessoa mais valiosa que eu tenho, e eu apenas desejo o seu bem.

Ele levantou-se, e dei um passo para trás. Ele era o homem mais alto que eu conhecia. O homem mais alto e... o mais injusto!

- Mas...

Senti vontade de avançar em sua direção e arrancar a garrafa de suas mãos, de me lançar sobre ele e de gritar. Senti vontade de sair dali correndo, de mudar de nome e de amaldiçoar a vida. Senti até mesmo vontade de puxar a corda de suas mãos e de estraçalhar aquela transparência. Se eu não o podia tê-la naquele momento, não a desejaria mais. Senti vontade de muito, senti vontade de tudo! Contudo, fiz pouco.

Meu pai passou a ponta livre da corda por cima de uma estrela e puxou-a até às alturas, levantando a garrafa muito acima de nossas cabeças. Depois, ele amarrou a mesma ponta também no gargalo e deu-me a certeza de que ele havia calculado o mínimo de corda necessário para fazê-lo.

Ele afastou-se um pouco e sorriu para o pingente. Ele, então, olhou para mim.

Olhei para a garrafa pendurada e coloquei-me embaixo dela. A luz da lua tocava-a e criava luzes por todo o deserto. Estiquei o braço e tentei alcançá-la, mas nada consegui. Coloquei-me nas pontas dos pés e tentei de novo alcançá-la, mas ainda não consegui alcançá-la.

Olhei para o meu pai.

- Tudo o que você precisa fazer é esperar. Apenas esperar. – ele disse.

E partiu.

Olhei de novo para a garrafa e recuei. O universo pareceu-me grande demais. Muito tempo. Teria de esperar muito tempo. Mas iria esperar.

- O tempo que for preciso.


A Fábula do Buraco

O escritor encostou sua caneta na folha em branco. Decidiu, por fim, escrever a história de um amigo, de um amigo a quem não via havia muito tempo. Ele, então, começou assim:

Era triste ver um antigo companheiro naquela posição engraçada, agachado e sujo de terra. Ver que, depois de tudo o que haviam vivido juntos, ele agora se resumia àquilo: um louco a cavar um buraco com suas próprias mãos.

Começara aquele espetáculo havia três dias, informou o empregado da quitanda, e, por causa do tipo de terreno que era, por causa da chuva que havia caído durante a noite, ele havia avançando ainda muito pouco.

Carlos, cuja presença não fora notada, sentiu um sentimento de culpa pelo que estava acontecendo.

– Ah, meu irmão. Por que eu lhe abandonei à sua própria sorte?!

E, pela amizade que continuava sentindo, pela memória de tantos bons momentos, ele resolveu tentar ajudar o seu amigo. Se existisse alguém capaz de trazer-lhe de volta à realidade, mesmo a custo dessa mesma amizade, esse alguém seria ele.

– Amigo!

– Carlos! Quanto tempo!

– Então?! Você está querendo chegar ao Japão?!

– Que isso, meu irmão?! Você está pensando que eu fiquei louco?! Todo mundo sabe que o interior da Terra é cheio de magma e que se eu fizesse isso eu iria queimar-me! Eu estou indo mais é para a Itália! Primeiro, eu vou cavar para baixo e, depois, quando as coisas começarem a aquecer, eu vou mudar de direção e ir direto para a Europa, cruzando por debaixo de todo o oceano Atlântico.

Alguém bateu na porta do escritório e interrompeu seus pensamentos.

– Entre! – disse o escritor.

Era sua esposa. Viera avisá-lo que o jantar estava pronto.

– Meu anjo, eu já vou. Deixe-me apenas terminar um pensamento.

E, com a compreensão típica daqueles que amam um artista, ela sorriu e retirou-se.

– Onde eu estava? – murmurou – Ah, sim...

– Para a Itália?!

– Exatamente, caríssimo! Algum problema?

– Amigo, chegue aqui.

Ele subiu até à beirada do buraco e sentou-se ao lado de Carlos. Não faria mal algum se ele fizesse uma pausa.

– Diga lá.

– Isso é impossível, rapaz! Você nunca conseguirá realizar tal projeto! Mesmo que você nunca parasse de cavar, você morreria antes de ter alcançado sequer um quilômetro! E você nem está usando uma pá, por Deus! Venha comigo e esqueça isso! Vamos dar um pulo até à minha casa, você irá tomar um banho, a gente irá achar um rumo pra sua vida e pronto! Não desperdice a sua existência numa loucura dessas! Eu sei que eu não tenho estado muito presente nos últimos tempos, mas eu prometo que isso não irá acontecer novamente.

Um silêncio profundo formou-se entre eles. Carlos poderia ter suas razões, mas nenhuma amizade é mais forte do que um sonho.

– Carlos, eu percebo o que você está tentando fazer por mim e agradeço-lhe do fundo de meu coração, mas, se você me permite, eu vou continuar com a minha tarefa. Obrigado por estar tentando dizer-me o que você pensa ser o melhor para mim, mas o melhor para você não é, necessariamente, o melhor para todas as pessoas. – ele fez uma pequena pausa e continuou – Eu sei que esse buraco é uma tarefa difícil, Carlos, mas foi assim que eu encontrei um objetivo para a minha vida.

– Você conseguirá ser feliz mesmo sabendo que você não irá à parte alguma?

–A felicidade não está numa realização, mas no prazer de poder acordar todas as manhãs e sentir um amor por aquilo que está fazendo. Eu amo esse buraco, Carlos! Ele é minha vida! E não se preocupe! Você nunca será responsável pelas minhas opções!

– ...

– Mas sabe – ele continuou – a ideia da pá não é de toda má!

O escritor parou de escrever e encostou-se em sua cadeira. Bastava, por enquanto. Poderia ficar ali durante horas, mas não queria deixar que sua esposa jantasse sozinha. Ele, afinal, também a amava.

E pensar que ele, o próprio Carlos, um dia iria morar na sonhada Itália de seu amigo.

Ele levantou-se e deixou sua caneta sobre o seu texto. Saiu do cômodo e portou consigo a sensação que sentia quando encontrava algum texto que lhe inspirasse vontade de continuar.

A noite caiu na pequena vila toscana.

Eram três horas da madrugada quando um rumor passou a ecoar nos aposentos daquela casa. Iniciou como um grilo à distância, soando entre pausas, porém, mais tarde, começou a lembrar o arrastar de um móvel, insistente, com o mesmo ritmo de um pêndulo, para surgir, após mais alguns minutos, o som inconfundível de terra sendo escavada.

TOC. TOC. O som surdo de ferro batendo no piso de madeira daquele escritório teria sido escutado se alguém ainda estivesse acordado.

Quem é que estivesse ali embaixo começou a bater diversas vezes e com mais força com o que seria, talvez, uma caneta, até que, após ceder e ceder, a madeira quebrou e explodiu em mil e uma lascas. CRASH.

Do buraco surgiu uma cabeça suja de terra, mas não tão suja a ponto de esconder o sorriso de sua face.

Seu amigo havia chegado à Itália.

O escritor parou de escrever e encostou-se em sua cadeira. Bastava, por enquanto. Poderia ficar ali durante horas, mas não queria deixar que sua esposa jantasse sozinha. Ele, afinal, também a amava.

E pensar que ele, o próprio Carlos, um dia iria morar na sonhada Itália de seu amigo.

Ele levantou-se e deixou sua caneta sobre o seu texto. Saiu do cômodo e portou consigo a sensação que sentia quando encontrava algum texto que lhe inspirasse vontade de continuar.


A Operária

Falou mais alto o seu instinto de sobrevivência. É assim quando nos sentimos ameaçados. Mais do que isso, ele fora acossado e, defendendo-se, matou-a.

Perguntaram-lhe depois:

– Você se lembra daquele dia?
– Não. - e expirou.

Contudo, eu, eu nunca me esqueci daquele dia.

***

Estávamos ajudando nossa mãe com suas tarefas diárias. Cedo começaram as fainas. Um céu límpido e uma temperatura amena afastavam-nos do outono e escondiam a tragédia iminente. Ríamos e todos nós realizávamos nossas tarefas com amor. Jogávamos conversa fora, circulávamos e, sem atrasar o andamento dos trabalhos, sentíamos a segurança de nosso lar.

Mas eis que um grande ruído nos desconcertou.

– Estão tentando derrubar nossa casa! - um de meus irmãos gritou.

O horror instalou-se entre nós. Voamos sem rumo e imaginamos o pior. Ouvi um grito, dois, três, um choro, "Vamos lá fora!", gritei, mas nossa mãe, que até então tinha permanecido em um estado de alerta, disse que seria ela a resolver o problema.

Tivemos dúvida. Ficamos preocupados com ela, mas ninguém ousou impedi-la. Nosso respeito por suas decisões era ainda maior do que nosso medo.

Do lado de fora, ela deparou-se com uma situação infernal: um homem muito forte, um brutamontes, estava prestes a destruir-nos com um machado. Nossa mãe não teve dúvidas. Diante do que aquele gesto significava, voou na direção daquele sujeito com um grito desesperado, um grito que só é capaz de dar alguém que pretende proteger sua prole, mas o nosso agressor, percebendo então que seria picado, usou o terrível machado para derrubar a nossa mãe, o que fez, com um golpe certeiro.

Mais uma abelha rainha que morreu.

Não vou dizer o que aconteceu com a árvore, nem falar sobre a dispersão que sofremos depois daquele dia, mas posso dizer o que eu fiz e para onde eu fui depois dali: liguei-me para sempre àquele agressor. Segui cada passo de sua existência até à sua morte, pois, sentindo saudades de minha rainha, aquele homem passou a ser a minha vida, primeiro por causa de um sentimento de vingança, depois de compreensão.

Descobri mais tarde que, naquele dia, ele tinha chegado a nós apenas à busca de lenha para aquecer sua família, desconhecendo a existência de nossa colmeia.


A Votação dos Vivos

Para quem não sabe, Vevey é a cidade onde Charlie Chaplin passou seus últimos vinte e cinco anos de vida, depois de ter sido proibido de voltar aos Estados Unidos pela campanha anticomunista de Joseph McCarthy. Uma pequena ville suíça localizada a apenas um lago da França.

Não deve existir nada mais maravilhoso do que envelhecer ao lado da pessoa amada, em sua própria casa, em um lugar tranquilo e com o sentimento de trabalho realizado.

No intuito de aproveitar o agradável tempo que fez no último domingo, sinal de que a primavera está chegando, caminhávamos pelas ruas de Vevey quando uma pergunta surgiu em minha mente: se a humanidade pudesse votar em uma pessoa para ressuscitar, quem é que venceria?

De cara, imaginei que as mais votadas seriam as de teor religioso. Buda, Jesus e Gandhi encabeçariam a lista. Depois, viriam os políticos e os revolucionários. Quantas pessoas não gostariam de dar mais tempo à família Kenedy, ao líder Mather Luther King e à princesa Diana? E, finalmente, espalhados por diversas minorias, viriam os artistas e os atletas. Seriam os votos daqueles que gostariam de rever as vitórias do Sena, os shows do Elvis, as pernas da Marilyn Monroe e os novos trabalhos do Michelangelo.

Ok, ok. Não posso ignorar que essa seria uma votação democrática e que também haveria os votos dos inconsequentes (o texto é meu e eu escrevo o que quiser). Hitler, Napoleão e Mao Tse teriam seus votos; Salazar, Franco e Mussolini, os seus. Teriam votado nesses: os historiadores, os curiosos, os seguidores de suas filosofias e aqueles que sentem saudades dos velhos tempos. Estúpidos, estúpidos, e eu já disse que o texto é meu.

Mas e eu? Em quem é que eu votaria?

Em Jesus? Melhor não. A gente ainda pegava nele de novo para Cristo. Além disso, segundo alguns, nem precisamos votar nEle para que Ele ressussite um dia. Então no Buda? No Mahatma Gandhi? Mas trazê-los de volta pra quê? Eles já não deixaram dito tudo o que queriam dizer? E agora eu iria querer o quê? Que eles repetissem os seus sermões somente por que nós não entendemos direito? Por que as suas mensagens foram distorcidas com o tempo? Outros dois mil anos para distorcermos tudo de novo. Não. Prefiro acreditar que eu sou um fraco, não surdo.

Então por que não votar nos santos? Naqueles que deram as suas vidas em sacrifício? Madre Teresa de Calcutá, Bezerra de Menezes e... Peralá! Eles também não! Eles já fizeram por tempo suficiente aquilo que todos nós deveríamos estar fazendo!
Tancredo Neves? Che Guevara? Chico Mendes? Não. Também não. Lá se foi o tempo em que eu acreditei que apenas uma pessoa é capaz de salvar uma nação, ou unificar países.

Adianto-me para informar que o quarto nível não aparecerá mais nesse texto.

O que faz com que me reste, portanto, o terceiro escalão, o dos artistas e dos atletas, e é claro que, como escritor, eu votaria em um artista.

Mas em quem? Em quem é que eu votaria para que chamassem de novo para uma nova turnê? Ou melhor, quem eu gostaria que voltasse, já que, fazendo parte de uma das minorias, a minha escolha também não venceria?

Da Vinci? Tom Jobim? Hemingway? E foi aí, nesse ponto, que eu vi que eu não havia achado uma resposta para a minha pergunta, mas que eu havia criado uma pergunta para minha resposta. Deus, como eu gostaria de ter conhecido Charles Spencer Chaplin!

Tenho visto e revisto inúmeras vezes os filmes desse humanista, e, até hoje, nenhum outro realizador, músico, pintor ou escultor possibilitou-me a divina ventura de poder chorar e rir ao mesmo tempo, um transbordamento da alma que, quando nos alcança, nos faz ver como tudo é perfeito e, acreditem, como é infinita a beleza da alma humana.

É isso. Eu votaria no Vagabundo. Não por algum sentimento egoísta, achando que ele deveria voltar para fazer algo mais por nós, mas, simplesmente, única e simplesmente, para dizer, baixinho no seu ouvido, um carinhoso obrigado.

Obrigado, Chaplin.


Almoçando com Siddartha

Bastou atravessar o longo túnel para encontrar um céu azul e sem nuvens. Normalmente é assim em Ticino, na Suíça italiana. Separado dos outros cantões pelos Alpes, muitas vezes já deu as boas vindas à primavera antes de ter terminado de nevar nas casas de língua francesa, alemã e romanche – dialeto que corre o risco de um dia desaparecer.

Eu dormiria de novo em Lugano, uma das principais cidades da região e um delicioso lugar para visitar. Aliás, na primeira vez em que lá estive, vi um cartaz na rua e reconheci o Pão de Açúcar. Não era. Era Lugano.

A princípio, como estou a viver na Suíça francesa, causa sempre um pouco de impressão ver tantas pessoas falando italiano (sem que sejam, necessariamente, turistas) já que nem saí do país, mas, depois, com os sorvetes e as pizzas, começo a me questionar se não saí realmente, pois, de tão bons, só podem ser italianos. E, por falar em Itália, nada mais do que um passeio de barco para colocar o pé na bota.

Mas o ponto máximo do meu feriado, depois de ter interrompido duas missas de Páscoa para encontrar uma língua que eu compreendesse, foi um passeio que fiz até à cidade de Montagnola, até a casa de meu "amigo" Hermann Hesse, o autor de Siddartha. A história, segundo o autor, do príncipe indiano que viveu antes dO Cristo e encontrou o Nirvana; uma doutrina romanceada que me portou tamanha lição que a tenho indicado para inúmeros conhecidos.

Hermann Hesse, filho de missionários alemães, estivera diversas vezes na Índia e na Itália, descobrindo, no primeiro, suas crenças e, no segundo, seu amor pela arte. E terminou seus dias pintando modestas aquarelas e quadros a óleo, como forma de terapia à sua mente questionadora.

"Ler um livro, para o bom leitor significa:
conhecer a personalidade e a mentalidade de um desconhecido,
procurar compreendê-lo, possivelmente conseguir tornar-lhe amigo."
(Hermann Hesse)


Apesar do PAN

Acabei de voltar do Brasil e voltei de novo incomodado. Os jogos Pan-Americanos tem vencido a cultura por três a zero. Digo de novo porque há sempre uma coisa me incomodando no Brasil, mas, se falo mal, é porque amo o Brasil. Com certeza a minha indiferença seria pior, mesmo que eu comece a duvidar de que eu continue mesmo sendo brasileiro. E isso não tem nada a ver com eu ter conseguido minha nacionalidade portuguesa e estar com todos os direitos para pedir a nacionalidade italiana e a nacionalidade suíça, mas pelo simples fato de sentir que hoje no Brasil eu faço parte de uma minoria.

Afinal, quais são os valores que definem uma nação? As fronteiras que limitam o lugar onde você nasceu? A nacionalidade de seus pais? Ou a afinidade que existe entre as pessoas? Detesto carnaval, não gosto de pagode, acho desesperante estar no meio de pessoas falando alto e ao mesmo tempo e há tempos que não posso mais com a filosofia das cervejinhas de sextas-feiras. Também desprezo o esporte, assim como as novelas, como ópio do povo. Não o ato de praticá-lo, mas o instinto de grupo que enche estádios, vestindo a camisa de um clube e ao ponto de chorar. E que ignorância, vaiar até o Presidente. Eu amo é Puccini, amo um bom livro, inclusive amo Luis Fernando Veríssimo, amo um bom vinho e hoje só gosto de reuniões que não ultrapassem o número de seis pessoas.

Mas, enfim, seja por eu ainda ter aquele passaporte verdinho, seja pelo meu direito democrático de dar a minha opinião, principalmente dentro do meu site, eu vou mesmo reclamar.

A cultura no Brasil estava em greve (ainda está), e isto não recebeu a mínima atenção do povo e, conseqüentemente, da mídia. Não pude registrar os meus últimos dois livros; não pude levar a minha esposa para conhecer o Museu de Belas Artes; não pude caminhar pelos jardins do Museu da República. Ainda, quando estávamos passeando pela orla, procurei sedento pela estátua de Carlos Drummond de Andrade, já que seria a primeira vez que eu a veria, contudo, desprezado, atrás de um palanque enorme do pan-americano, lá estava ele, inalcançável, como o próprio poeta estaria hoje em dia em relação a nós todos, simples humanos. E, por pouco, por pouco mesmo, passo por ela sem mesmo dar-me conta.

Não poderiam ter dado um espaço mais respeitável para ele, para a sua poesia, ao invés de tentarem calá-lo? Para não dizer do lugar que ele deveria merecer na tribuna de honra. Ou pensaram que não existiria nenhuma pessoa que poderia estar naquele momento no Rio por outro motivo que não o esporte, doido para que toda esta festa chegasse ao fim e que libertassem Drummond, e que voltassem a dar atenção à miséria e criminalidade que assolam o estado? Repito: o esporte não é mal, exceto quanto é usado para dopar o povo.

Compreendo muito bem a decisão dos sindicatos pela greve, pois não existia melhor altura para terem-na feito do que durante o pan. Conhecendo os governos que sempre tiveram, somente sobre os olhos de outros países que as suas reinvindicações poderiam ter alguma chance a mais, por menor que esta chance continuaria sendo.

E, agora, vamos para as janelas, irmãos, acenar com um lencinho branco para as Forças Nacionais que partem. Adeus! Adeus!

E assim eu também parti.

Beijos, despedidas, e entramos no portão de embarque. Primeira má notícia, o vôo da TAM seria só às 18 horas, ou seja, com duas horas de atraso. Na lateral do avião a frase: orgulho de ser brasileira.

Escondam-me.

Finalmente chegamos a São Paulo.

Aí o problema foi que, em São Paulo, já teríamos perdido o nosso vôo para Paris, por causa da hora.

Pedimos uma informação para o primeiro funcionário da TAM, e ele disse que o vôo já tinha seguido.

O segundo funcionário disse que o mesmo ainda não tinha saído.

O terceiro disse que já tinha.

Com o quarto funcionário, isto tudo correndo dentro de um aeroporto apinhado de gente, com pessoas dormindo no chão, filas e mais filas, pois saímos de dentro do avião e caímos dentro da multidão que ainda não tinha feito check-in, ficamos sabendo que o avião ainda estava lá.

Entramos no avião e duas horas depois (comecei a me perguntar como seria em Paris, já que com certeza o vôo de lá para Genebra perderíamos) o comandante avisou - só em português, até alguns estrangeiros reclamarem que queriam saber o que estava acontecendo - que estavam tendo um problema no computador responsável pelo reabastecimento e que iríamos demorar mais uns vinte minutos.

Uma hora depois, o mesmo comandante avisou que aquele avião afinal não iria poder voar por causa daquele problema e que iríamos trocar de avião, mas primeiro seríamos encaminhados para uma sala de espera.

Saímos do avião, mas outro funcionário da TAM, que nos esperava, disse que era para correr para outro portão de embarque que os passageiros seriam metidos dentro de outro vôo para Paris, que não seria o nosso das 19h10min, mas o vôo das 23 horas. Grande fila até que percebemos que já era um vôo programado e com isto já teria os seus próprios passageiros.

Reparei que uma mulher que estava conosco saiu da fila e foi num balcão de informações já cheio de gente, voltou com um bilhete e passou na frente de todo mundo e entrou na moita. Compreendi que só os primeiros conseguiriam ser recolocados.

Tive sorte. Sai da fila, fui até o balcão e entrei numa brecha. Fui atendido logo. Arranjei um bilhete para nós dois, voltei na fila, avisei a um cara do Goiás que era melhor ele adiantar o seu lado e ir neste balcão, ou a sua viagem de Goiás ainda ia demorar muito mais do que as primeiras 10 horas, e entramos no avião. Teria sido melhor se aquele jovem tivesse alugado um taxi até São Paulo, com o dinheiro que se gasta numa passagem aérea.

Enfim, entramos no avião.

Duas horas depois, o comandante se desculpou, pois a demora é que estavam transferindo as malas do outro avião e aceitando novos passageiros, dentro de um avião, esqueci-me de dizer, já lotado quando a gente entrou; o que significava que muitos ficariam em São Paulo, dormindo no aeroporto até o dia seguinte.

Finalmente o avião levantou vôo e tivemos o jantar, doze horas depois do filé que comemos no portão de embarque do Brasil. Dormi como uma pedra, o que pelo menos o cansaço foi bom.

Chegamos a Paris e corremos para uma nova fila de pessoas que estavam ali como nós e que fariam transferências para diversos lugares da Europa. Os de Zurique dormiram em Paris, os de Munique também, mas os de Genebra ainda poderiam pegar o vôo das oito, uma hora depois.

Se soubesse do problema que teria com as malas, teria ficado no fim da fila e dormido em Paris de graça.

Encaminharam-nos para este vôo das oito, mas nos mandaram antes ir até o balcão da Air France falar que tínhamos duas malas. Fomos e pedimos três vezes a certeza de que nossas malas estariam sendo transferidas para este vôo. "Com certeza!", mas para confirmar ainda mais, ela falou para corrermos para o avião, sermos os últimos a entrar nele, e pedir para confirmarem no computador se a gente viajaria com as nossas bagagens. O cara meteu lá o número e disse que as duas malas já estavam embarcadas. Estranho, mas como ele disse que sim, entramos, sem eu deixar, entretanto, de olhar para o seu crachá e decorar o seu nome.

Chegamos a Genebra, 24 horas depois, e fomos esperar as malas.

Lógico! Lógico! Nada de mala! Nenhuma das duas!

Fomos às reclamações de bagagens e a moça, que ouviu muito o meu francês imperfeito e irritado, disse que uma mala estava ainda em Paris e a outra no Brasil. Até menos mal do que um senhor que tinha três malas e que tinha aparecido na televisão brasileira por ter seqüestrado um agente da TAM. Uma das suas malas tinha chegado a Genebra, provando que não tinha sido impossível a transferência das malas, a segunda foi localizada em Paris, através do computador, e a terceira, bem, a terceira simplesmente eles não poderiam dizer onde se encontrava.

A moça pegou os nossos dados para entregar as malas em casa, e entregaram, dois dias depois, mas mesmo assim pegamos todos os dados e informações para uma reclamação aos responsáveis, TAM e Air France, pois, às vezes, fico cansado desta mania de esquecer o sucedido depois de resolvidas as coisas.

Uf...

É, eu sei, existiu o lado positivo. Valeu muito estar no Brasil, rever as pessoas que amo, comer as minhas comidas preferidas, e rever as belas paisagens cariocas, mas, desculpem-me, falar bem, todos podem, mas falar mal, ficar incomodado, querendo desesperadamente que dêem um jeito nas coisas, que não aceitem mais uma justiça divina ao lugar de tentarmos criar o céu agora, aqui, na Terra, faz parte de outra também pequena minoria, e, com licença, mas eu quero fazer parte dela.


Aventura Siciliana

Olhando para trás, reparo que muitos dos momentos da minha vida que mais gerariam histórias interessantes para contar seriam aqueles nos quais me deixei levar pela força de uma paixão. Um tipo de "espírito que baixa em mim" que vira e volta me aparece e me diz: "Vam'bora! Vam'bora que depois tudo se ajeita!". E, realmente, se ajeita, mas somente depois de descobrir, normalmente no meio da aventura, que a coisa, afinal, não seria assim tão simples de fazer. Foi assim quando eu fui voluntário para servir o Exército, com a minha ida para Portugal, quando eu fiz o Caminho de Santiago, com algumas relações amorosas que tive e, o motivo de estar hoje aqui, durante a minha aventura siciliana, no papel de Peter Fonda.

A futura senhora Carretoni e eu estávamos vivendo em um apartamento alugado em Cefalú, no nordeste da Sicília, quando surgiu o irresistível projeto de alugar uma moto e cruzar a ilha siciliana em apenas um dia, o que nos daria a oportunidade perfeita para tirar uma foto do vulcão Etna.

Entrar na loja foi fácil. Pagar o aluguel foi fácil. Tinha acabado de tirar a minha carteira de moto no Brasil, por isso, acertar os documentos também foi fácil. Haviam alugado a última moto, então escolher a mais possante scooter disponível foi fácil. Pecado ninguém nos ter filmado quando a gente deixou a loja. Eu posso jurar que a música "Born to be Wild" estava sendo tocada em todas as rádios italianas.

Dei uma volta no quarteirão para sentir o balanço de uma scooter, mas tranquilo. Nada demais, pensei. E assim partimos em direção à autoestrada, às dez da manhã, seguindo as indicações que nos levariam até a cidade de Siracusa, nosso objetivo mais distante.

O nosso plano era o seguinte: chegaríamos a Siracusa antes da uma, passaríamos duas horas conhecendo a cidade e, depois, voltaríamos pra Cefalú.

Alguém sabe como é o meio da Sicília? Não tem problema, eu conto; algo que descobri apenas no decorrer daquele dia. Não tem nada! A estrada cruza planícies e mais planícies descampadas e tudo o que você vê em volta é nada! Tirando uns carros queimados, o que nos fez conjecturar sobre a ação da Cosa Nostra por aquelas redondezas.

Ainda sobre o descampado: todo o balanço da scooter deixou de parecer com o balanço de uma moto, deixou até mesmo de parecer com o próprio balanço de uma scooter. É que aquele tipo de natureza fazia com que todo o vento chegasse até nós com uma força que não apenas me obrigava a andar a menos de oitenta quilômetros por hora como também começava a nos fazer questionar se aquilo havia sido realmente uma boa ideia. Sem me esquecer de que, curiosamente, não vimos nenhuma outra duas rodas durante todo o nosso percurso. Minto! Vimos uma moto! A qual, provavelmente, também estava sendo pilotada por outro estrangeiro. Em compensação, caminhão... Putz! Tirando a Avenida Brasil, eu acho que eu nunca tinha visto tantos. Vis criaturas que nos faziam sambar a cada vez que passavam por nós.

Cem quilômetros ficaram para trás; faltavam quatrocentos.

Finalmente, chegamos aos pés do vulcão Etna e fizemos as desejadas fotos. No entanto, uma coisa já não andava muito bem: o tempo gasto com a cruzada. Tínhamos demorado mais do que o planejado para chegar até ali, o que nos obrigou a tomar uma importante decisão: ou levaríamos aquela aventura até o fim, ou voltaríamos enquanto não estávamos tão longe assim.

Claro que resolvemos continuar.

Mão no acelerador – estranho isso – e lá conseguimos chegar até aonde queríamos. Estacionamos, olhamos para o relógio, três horas da tarde, e vimos que havíamos demorado mais de quatro horas para percorrer duzentos e cinquenta quilômetros. Que tristeza! Isso significava que, para que não pegássemos a estrada de noite, nós deveríamos sair dali exatamente às... Naquele exato momento! Se não quiséssemos viver a mesma aventura em um breo quase total, não poderíamos demorar nem cinco minutos e partir, o que fizemos, após comermos em um fast-food.

Ironia. Fizemos todos aqueles quilômetros somente para comer em um fast-food. Teríamos gasto vinte minutos e nem metade da grana se tivéssemos comido o mesmo sanduíche em Cefalú. Mas calma lá. Essa foi uma conclusão a que chegamos apenas no dia seguinte. Ainda tínhamos de pegar a estrada de volta e, para uma pessoa que nunca havia dirigido uma moto por mais de uma hora seguida, no que eu mais estava pensando naquele momento era em como a minha bunda começava a doer.

Detesto ser eu a dar as más notícias, mas alguém tem de fazê-lo. Era outono e descobri também que, depois das duas horas da tarde, no meio da Sicília, aquele mesmo vento forte lateral virava um vento forte lateral gelado, e eu, vestido apenas com um casaco de moletom e uma camiseta, comecei a tremer de frio (aprendi a não exagerar nos adjetivos, mas, compreendam, fazia MUITO frio).

Quando paramos para reabastecer, esticar as pernas, que estavam mais duras do que um coco verde, e colocar as minhas luvas, descobri que meus óculos caros e espelhados, que tinham estado até então pendurados em minha camiseta, haviam ficado em algum lugar daquela estrada.

- Vejam! Uns óculos quebrados no meio da estrada! Com certeza a máfia despachou alguém aqui!

Quando, enfim, chegamos ao pedágio de Cefalú, com hipotermia, dor nas pernas, dor na bunda e sem os meus óculos, a noite tinha acabado de cair. Que alívio!

Quinhentos quilômetros no total, para surpresa do gerente da loja. Ele foi até conferir o velocímetro a fim de verificar se tínhamos sido sinceros.

Bem, agora, se me perguntarem se eu aprendi a lição, se eu assimilei o hábito de desconfiar quando o santo é grande, se eu já pego mais leve quando tenho de escolher, eu vou ser obrigado a responder um discreto e consciente: "não". Eu teria feito tudo de novo, igualzinho, pois eu sou simplesmente assim: à procura, apaixonado e com dificuldades, mas feliz.


Caracol Gosmento

Mês passado, durante um jantar de sushi sashimi, feito por mim, resolvi que minha próxima crônica seria sobre comida.

Hum... Comida... Quem é capaz de viver sem ela... (?)

Porém, mais do que falar sobre meus gostos, ou minha falta de gosto, ou transcrever alguma receita maluca que eu gostaria de compartilhar, parti do princípio que interessante mesmo seria transcrever um pouco da viagem gastronômica que tenho feito desde 1998, ano em que vim para Portugal.

Comer, no Rio de Janeiro, era, até então, para mim, uma questão resolvida. Lá, bom mesmo era comer o que eu já conhecia: farofa, mandioca, catupiry (da maneira que viesse), pão de queijo, acarajé, esfiha, uma paella no antigo Rio Galícia, bife e batata frita, mas, depois, ulálá, Deus é testemunha do que tenho encontrado nessa vida.

A primeira coisa sinistra que vi, no exterior, foi um perceve na Cervejaria da Trindade, em Lisboa. Mais parecido com uma unha negra alienígena do que com um petisco, coisa que é, deve ser ingerido da seguinte forma: devemos quebrar sua ponta e chupá-lo. Comi apenas um e achei que não valia o esforço. Após isso, vieram o choco grelhado (um tipo de polvo branco do qual gosto muito), o cavalo (que estranhei apenas no começo), a miga (mais saborosa do que minha preocupação com meu colesterol), o camarão gelado (que repousa dentro de um prato de gelo antes de ser servido), a paella original (bastante diversa daquela que eu conhecia), o chucrute, o cornet de châlet, a raclette, a fondue chinoise e, finalmente, o caracol (miniatura do scargot, é cozido dentro de uma água temperada, assim como o perceve).

Comecei brincando. Estava em uma mesa com sete ou oito portugueses e, como eu era o único que não estava metendo a mão no pratinho de moluscos, arrisquei. E nunca mais parei.

Há três maneiras de comer esse pequeno, gosmento e rastejante ser:

- Chupar e o que vier veio, jogar a "casinha" em outro prato e pegar outro, cuja qualidade você já deve estar namorando enquanto come o primeiro;

- Fazer um pequeno buraco na "casinha" com o dente e chupar o caracol, que normalmente vem, mas é uma técnica de que não gosto. Sempre vem o pedacinho quebrado da casca para dentro de sua boca;

- Pegar um palito de dente, ignorar a sensação de que os dois olhinhos estão nos observando, retirar o caracol como um cirurgião, comê-lo, e depois sugar da "casinha" o caldo que restou.

Gostei tanto que, hoje, prefiro mais a caracoleta a o caracol. Além de maiores, têm uma textura mais consistente, são grelhados no sal grosso e podem ser ingeridos (minha preferência) com molho de mostarda. Perguntem-me, e eu sou capaz de indicar um excelente restaurante na Graça, também em Lisboa.

Nojento? Sem ao menos o ter provado?

Não... Penso que é apenas uma questão de cultura. Bastava você ter nascido em Alfama ou ter sido criado a escutar Amália Rodrigues que você hoje estaria aí, lambendo os dedos.


Carta Bomba

Equiparo meu trabalho com o de desmantelar bombas. Devo aprender tudo sobre nitroglicerina e explosivos plásticos. Tenho de saber qual fio não cortar e não explodo um engenho desde os tempos da Academia, quando tive de fazer uma grande faxina no laboratório.

Ao escrever sobre a alegria, procuro dar direção à prosa, sem me entusiasmar. Não devo pensar pelo leitor, e exagerar nos adjetivos ou nos advérbios pode ser perigoso.

Ao escrever sobre a tristeza, são meus deveres transportar as palavras com atenção e motivo e procurar um desfecho saudável. Tenho outras histórias na cabeça onde tudo explode, mas ainda não chegou o momento de escrevê-las, ou talvez nunca o faça.

Perdi amigos mais incautos e tenho fotos de certos exemplos penduradas na parede. Sei que não é um trabalho sensato. Contudo, pode ser uma profissão digna.

Recordo-me de que tive a minha primeira experiência significativa ainda jovem. Fechei uma redação da escola, que ironia, com uma bomba atômica caindo em cima de mim e, como se tratava de um sonho, com o meu despertar. Recebi um elogio e gostei.

Minha segunda experiência aconteceu algum tempo depois. Outra professora pediu para que nós escrevessemos uma redação sobre o que pensavávamos sobre a instituição onde estudávamos. Ela jurou que seria a única pessoa a ler as redações, e eu acreditei. Descobri dois meses mais tarde que eu estava sendo expulso da escola por ter exagerado nos adjetivos.

Minha terceira experiência aconteceu anos mais tarde. Escrevi uma poesia para meu pai, e ele saiu correndo para mostrá-la aos seus colegas. Na poesia, eu dizia que o amava e pedia-lhe para que parasse de querer morrer. Não adiantou muito, e ele morreu, e eu continuei amando-o. É uma das raras exceções na qual espero não ter economizado nos adjetivos.

Enfim, cada frase que escrevemos deve ser manipulada com o devido respeito, pois todas as palavras têm o poder de marcar de forma definitiva o passado.

Escrevi bilhetes de amor para mulheres que amei mais do que a própria vida, e quase todos esses amores não sobreviveram. Alguns bilhetes sobreviveram mais do que as relações que os originaram.

Tenho relações sobre as quais ainda não escrevi o suficiente e espero ter uma longa vida para poder fazê-lo.

Escrevi cartas para pessoas queridas quando a distância se fez presente, e cada uma dessas cartas ajudou-me a acreditar na alegria do reencontro.

Escrevi bilhetes cheios de mentiras e bobagens e espero que não os tenham guardado.

Escrevi preces na forma de poesia e fui atendido ou confortado.

E, assim, continuarei executando meu trabalho, entre horas alegres e desgraçadas, esperando, quando estas linhas pararem, o momento de cortar o fio do meu epitáfio. Não. Não lhes direi qual é, pois isso seria como contar o final da história. Se eu o conheço? Claro que sim! Eu sou um escritor e já tenho alguma experiência na área. Eu o vi no dia em que eu tive a certeza do título que eu daria ao romance de minha vida.


Don Quijote Ecologista

Faz tempo que quero escrever sobre a minha aventura com turbinas eólicas.

Em 2007, depois de quatro meses desempregado em Lisboa, comecei a dar tiros por toda a Europa. Como havia recebido a nacionalidade portuguesa, Espanha, Inglaterra e Itália deixaram de ser apenas um sonho. Continuava limitado aos meus conhecimentos informáticos, mas faria tudo para arranjar um trabalho completamente diferente. Os idiomas, por fim, começaram a não ser mais um problema, e qualquer mudança de morada, para mim, nunca o foi.

Ligaram-me da IBM da Bulgária, mas achei que a Bulgária não entrava nos meus planos. Mandei alguns currículos para Londres, fiz uma entrevista on-line para Madrid e fiquei fascinado pelo seguinte anúncio: "Contrata-se pessoas com bons conhecimentos de inglês e sem medo de altura". Claro que fiquei tentado. O anúncio era para trabalhar com turbinas eólicas. Pagavam bem, era um trabalho de ideologia, e eu, enfim, não estaria mais enclausurado dentro de um escritório. Uma foto de um moinho moderno ilustrava a oferta, o que me lembrou do Don Quijote.

Tudo foi muito rápido: entrega de documentos, tirar atestado médico e fazer uma entrevista em inglês, mas ainda tive de esperar dois meses para ser chamado.

Estava na Suíça – havia passado o Natal e o Ano Novo empanturrando-me –, quando o telefone tocou. Teria de me apresentar dois dias depois na pequena cidade de Salles-Curan, no sul da França, a alguns quilômetros de Millau.

Nota: Millau abriga a ponte mais alta do mundo, aquela da qual fizeram fotos onde parece estar flutuando sobre as nuvens.

Verdade! Até o momento da chamada, eu não sabia aonde iria trabalhar. Minha empresa tinha funcionários alocados na Grécia, na Escócia e na Turquia, e calhou-me a França.

O TGV que peguei parou em Montpellier, fiquei contrariado por descobrir que não havia ninguém me esperando de carro como o combinado e tive de fazer outras três horas de trem. Encontrei-me, então, em Millau, com o grupo, jantamos e enchi-lhes de perguntas. Éramos quatro, sendo que dois já tinham alguma experiência.

Cheguei ao campo de turbinas às 6 horas da manhã do dia seguinte e fui apresentado ao grupo de dinamarqueses, franceses e holandeses. Penso que noventa por cento das pessoas fumavam. "Briefing" e depois passei a primeira manhã inteira tentando arrancar a grade que separava os dois lugares de uma de nossas duas carrinhas da parte traseira. Um dos patrícios que trabalhava comigo havia fechado o carro e deixado as chaves na ignição – a sorte que ele tinha deixado a porta de trás aberta. Confesso que comecei a pensar que tudo aquilo seria mais fácil do que havia pensado e até mesmo divertido, mas não foi fácil. Descobriria, mais tarde, o que significa direito do trabalhador. Lá, não havia algum.

As jornadas eram de onze horas e não tínhamos direito a alguma pausa. Pausas eram feitas discretamente. Como é fácil imaginar, as turbinas ficam no alto das montanhas. Tive de trabalhar durante onze horas em um lugar com fortes ventos durante o inverno com chuva e até mesmo neve e sempre do lado de fora, e, pra completar, o almoço era um descanso de apenas quinze minutos com a mão suja de lama. Usamos o canivete de um colega, o qual era utilizado para todos os serviços mecânicos, para cortar os pães e nos empanturrarmos de mortadela. Além disso, não havia algum bar, algum banheiro, alguma máquina de café ou de água no raio de quilômetros.

Na primeira noite, quando fiquei sozinho no quarto, chorei e pensei desistir de tudo.

Quando comecei a considerar-me com alguma experiência – a partir do segundo dia –, levei minha própria água e o meu almoço já preparado, mas, no terceiro dia, descobri que o meu almoço havia partido com o carro para o mecânico e que estaria de volta apenas à noite.

- Ai o caral...

Meus colegas eram mestres na arte da retórica. Conseguiam dizer as palavras fod... e caral... em todas as situações e com variações inimagináveis. Confesso que durante dois anos eu continuei dizendo essas palavras, tamanha foi a contaminação.

Amiga, amigo, eu estava no meio de um canteiro de obras. O que você quer que eu diga? Só tinha cara sem educação naquela joça.

Mas foi impressionante segurar uma daquelas hélices com uma corda. Eu lá embaixo, ela lá em cima – pendurada em uma grua –, sendo encaixada no nariz da turbina, e eu procurando evitar que ela tocasse na grua. A corda fazia até uma curva, de tão alta. Disseram-me naquele momento que, se a hélice tocasse na grua, guindaste, turbina e hélice cairiam como brinquedinhos de isopor sobre a minha cabeça. E eu sozinho, segurando aquele fod... do caral... de milhares de euros. Eu! Só eu! Só eu contra aquele terrível dragão! – fui apenas interrompido para bancar o intérprete: um caminhão precisava passar e procuraram-me para dizer ao motorista em francês que ele teria de esperar ainda vinte minutos, até que terminássemos de aparafusar a hélice.

Também tínhamos direito a uma casa de dois andares. Cada um com o seu próprio quarto, banheiro e acesso ilimitado à internet. Contudo, na primeira noite mesmo, descobrimos que estávamos no meio do nada e que a internet não havia sido instalada; não tínhamos sinal nos celulares e apenas utilizaríamos aquela mansão pra dormir. E, como acréscimo, meu chefe não gostava de cozinhar. Demorei dois jantares para perceber que eu teria de chegar e jantar direto, sujo, se eu não quisesse cozinhar pra pessoas que jamais cozinhariam para mim.

E, antes de dormir, eu ainda esticava minha mão para fora da janela do meu quarto, com um frio de lascar, pra tentar pegar algum sinal no celular e pagar caro pacas cada chamada.

Na manhã do terceiro dia estava tudo branco. Ver neve ainda é sonho de muitos brasileiros, mas não há graça alguma ver às cinco horas da manhã que nevou forte e que você vai ter de trabalhar com tais condições. Naquele dia, aliás, uma hélice quebrou ao meio, enquanto estávamos tentando transferi-la de um dos caminhões de transporte para suportes que haviam sido feitos com feno. O gelo havia dado cabo de suas artérias. Sim, eu disse feno. Ao redor, apenas vacas e bois. Acho que foi nesse dia que um dos carros atolou e que tivemos de passar mais de uma hora tentando retirá-lo de uma mistura de neve, bosta e lama.

Os dois carros que tínhamos eram inúteis. Ninguém devia sair do campo, e, quando saía, era pra buscar algum equipamento. E comprar comida também não era fácil, pois, quando deixávamos o "escritório", à noite, os mercados da pequena cidadezinha de Salles-Curan já estavam fechados. Foi no segundo dia que tivemos de pedir para sair mais cedo para não morrermos de fome.

- Fod...

Não pude deixar de cair na gargalhada ao saber que o meu chefe costumava jogar gatos do alto da falésia de Nazaré – ninguém faz isso! –, e, quando perguntei aos meus colegas o que eles fariam de mais interessante com a grana que receberiam, a resposta mais inteligente que recebi foi a do outro novato, uma espécie de Sancho Pancho, que disse que usaria o seu primeiro salário para comprar uma nova tarântula pro seu aquário.

...

Todos peidavam durante os "briefings". Fiquei realmente decepcionado quando o grande chefe todo-poderoso, um dinamarquês de quase dois metros de altura e de cem quilos, interrompeu seu discurso e levantou a perna direita para soltar um grande peido.
- I'm sorry.

Um contêiner de 40 metros quadrados, 30 homens, fumaça de cigarro que não acabava mais, tudo fechado e peidos. Eu só ficava torcendo para que aquilo acabasse logo para que eu pudesse voltar para o frio.

Em poucas palavras, a coisa funciona assim: a companhia de luz faz um buraco no chão com todas as ligações necessárias, e a empresa montadora descarrega as três hélices, o nariz, o motor e os três tubos que formam o corpo perto do buraco. Monta o nariz, o motor, o nariz no motor e as pequenas partes como o elevador e as camisas das hélices, para, em seguida, colocar os três tubos em pé, o motor lá em cima e as três hélices. Se bem me lembro, cada turbina demora três semanas no máximo para estar pronta, se o tempo ajudar. E, como um campo contém sempre mais de 20 turbinas – 40, 70... –, enquanto um nariz está sendo montado em um local, uma hélice está sendo encaixada em um nariz em outro ponto qualquer.

Até que no quarto dia tive de abandonar aquela experiência.

No primeiro dia, o frio era insuportável, mas eu não podia desistir. No segundo dia, o frio continuou a arrancar-me a pele, mas eu não podia desistir. No terceiro dia, no dia em que nevou, não foi o mais frio, mas não foi o menos exaustivo. No quarto dia, o frio voltou pior, e fui chamado sozinho para descarregar dois motores, embaixo da supervisão passiva de um jovem francês administrador capoeirista e de um senhor gordo manipulador de equipamentos.

Apoiei a escada no primeiro motor, peguei uma pesada corrente utilizada para tal serviço e subi na primeira estrutura para esperar pelo gancho de um pequeno guindaste e, nesse momento, com um vento e uma chuva fina batendo na minha cara, com os dois senhores lá embaixo decidindo qual seria o melhor lado para se aproximar com o guindaste, sentei-me lá em cima e senti-me feliz, até mesmo completo, por estar ali. Consegui não sentir frio e senti-me realmente livre. Lembro-me de ter sorrido. Sei que estava lá havia pouco tempo, mas a ironia é que eu poderia ter demorado dez anos para ter tido aquela sensação. Eu conseguiria sobreviver àquele inferno; pensamento que – acredito – me tirou daquele lugar, pois, assim, eu não precisava mais estar ali.

Para descarregar o segundo engenho, quando levantei novamente a corrente para levá-la até à plataforma que fica na parte de cima do motor, senti meus músculos das costas rasgarem e tive a certeza de que era o fim da minha contribuição. Não sei se aquilo foi uma reação particular de meu corpo ou se foi uma consequência óbvia diante de todo aquele frio, mas sei que não consegui mais levantar o braço sem gritar de dor, movimentar o pescoço e tive de passar a sexta-feira do meu aniversário em casa, sozinho, aproveitando, enfim, a mansão.

- Ça va? - perguntou-me o parisiense apaixonado por capoeira.
- Ça va, ça va. - menti.

Não voltei mais ao campo e passei três meses recuperando-me da distensão. Ganhei uma boa grana com apenas quatro dias, mas, após alugar um carro para sair de lá, pagar um hotel para mim e para minha esposa em Montpellier, comer e comprar dois bilhetes de ônibus de volta para Lisboa, não sobrou muito.

Valeu a pena?

Se você leu a minha crônica "Aventura Siciliana", sabe que valeu. Um mês depois arranjei um emprego em Paris e cá estou, na França, desde 2008.

Mas por quê? Pra quê? Apenas pra ser capaz de dizer aquilo que eu vou dizer aqui? Também.

Considere que a vida é como uma turbina eólica girando à nossa frente, rapidamente e sem dar alguma paradinha. Você poderá passar a vida inteira observando-a, com receio de que as hélices lhe cortem, ou você poderá começar a aprender a não ter mais medo e pular na direção dela.

Quando você encontrar uma pessoa que desperte em você algum sentimento de amor, ou um trabalho interessante e difícil, não deixe de tentar atravessar o que você está sentindo, essa oportunidade única. Sinta, lance seus sentimentos em direção da turbina com toda sua paixão, sem mágoas, certo de que há uma grande possibilidade de que você nunca mais veja Dulcinéia. Diga-lhe que a ama nem que seja para ser escutado por apenas um segundo, pois você terá apenas um segundo e deverá decidir com quais palavras você irá ser recordado.

- Eu te amo.

Hélice.

Hélice, hélice, hélice, folhas de pontas agudas ao vento, como lanças em riste, a atravessarem meu coração. 


Elas tinham o controle da situação

Esta semana, viemos tomar conta de duas pequenas cadelas para um casal amigo, aqui, na Suíça Alemã.

Domingo, chegamos ao final do dia e fomos recepcionados com um chili con carne e cerveja. Ulálá, as duas cadelinhas, que gracinhas, que já conhecíamos, reconheceram-nos. Será uma excelente semana, pensei. Enquanto isso, no andar de baixo, diante de uma adega plena de vinho tinto, nossos anfitriões faziam a questão de nos dizer: “Podem ficar à vontade. Nós preferimos vinho branco”, e ficaríamos, mas, antes disso, eles partiram, e fomos dormir, para, no dia seguinte, acordarmos às sete da manhã.

Às sete horas, acordamos. As cadelas seriam, a partir de então, nosso despertador, para eu trabalhar no meu próximo livro, Piedade Recíproca, e para nós curtirmos a casa como se fosse nossa.

Aparecemos e foi a festa. Que coisinhas bonitinhas! Realmente! Pulando e lambendo-nos! Férias! Tudo é divertido quando estamos de férias! As únicas preocupações que nós teríamos de ter seriam: ver quando elas precisariam sair para fazer pipi ou cacá, dar-lhes de comer nas horas certas e brincar um pouco com elas para que elas não sentissem falta dos seus verdadeiros donos, pois, afinal, são crianças com apenas alguns poucos cinco meses de vida.

E leva pra fora, e trás pra dentro, e dá comida, e leva pra fora, e trás pra dentro, e brinca, e brinca, e leva pra fora, e trás pra dentro, e brinca, e brinca, e dá de comer.

Uma coisa, contudo, já começou a aparecer e que realmente não agradou muito. Era que, às vezes, elas pediam para ir lá fora e não faziam nada, e, como eu sempre saía com elas por causa das coleiras, começava a ser chato estar com um pouco de frio e ficar vendo-as comer grama e sentarem-se tranquilamente. Dentro, o meu computador ligado com o trabalho, e vinham elas, CAIM CAIM, quero fazer pipi, levava lá fora, e nada. Mas tudo bem... Férias... Tudo é belo quando estamos de férias.

Quando chegou perto das dez – ainda estamos no primeiro dia – elas estavam cansadas, não mais do que nós, e dormiram embaixo do sofá como habitualmente fazem. Momento esse que sempre aproveitamos para fazer as nossas coisas, para nossos momentos de amor e para um pouco de repouso. Já de cara uma coisa era visível, eram férias, mas nem tanto assim, pois as pequenas realmente estavam tirando nossas energias.

Almoçamos, e elas acordaram. Oba! Festa, festa! Leva pra fora, faz pipi, volta, corre, brinca, come, sai, não faz nada, entra, sai, não faz nada entra. Então, o inevitável aconteceu. Um cocô dentro, no tapete. Limpo, depois um xixi. Brinca, não posso brigar, são crianças, querem sair, saio com as duas, comem grama, não fazem caca e nem pipi, entramos, brincam, depois vão até à porta, ah, não deve ser nada de novo, não levo, estou cansado, resultado, encontro novos cocôs e pipis dentro da casa. Limpo. Putz. Elas dormem, finalmente, mais um pouco. Aproveitamos para... descansar. Jantamos. É mesmo impossível. Uma coisa é certa, ter criança deve ser algo parecido. Algo que realmente rouba o tempo das pessoas. Obrigado papai e mamãe.

Vamos dormir exaustos. Terça-feira, acordamos novamente às sete com o gemido delas. No quintal, fazem já um pipizito e um caca. Beleza. Deitamos no sofá, mas não conseguimos mais dormir. Tensão. Elas choram, querem brincar, brincamos. Às oito e meia, tomamos o café da manhã, saímos com elas, pipi, caca, brincar, caca no tapete, pipi no meu pé enquanto estou escrevendo. Caraca! Decidido! Vou ter crianças, mas cães nunca!

Poderia aqui repetir o que aconteceu na terça, na quarta, na quinta, mas não vou, pois eu só falaria de caca no tapete, xixi no chão e comer grama. Só vou dizer que quanto mais tempo estava aqui, mas descontrolado as coisas ficaram. Parece que, até ontem, quanto mais eu levava fora, mais comiam grama e esperavam entrar para fazer suas necessidades. A coisa tornou-se incontrolável. Realmente, eu juro que eu estive perto de matar as duas. Confesso que dei um tapa na mais velha quando eu a peguei no meio de um cocô no tapete. Arrependi-me. São crianças, não entendem. Mas foi fogo. Cheguei, e ela estava no meio, eu gritei e pensa que ela se moveu? Que nada! Olhou para mim e disse com o olhar, pô, agora deixa eu terminar. Terminar u caraca! Bati-lhe, e ela correu. Deve ter sujado a bunda toda, pois cortou o cocô no meio. Ai ai.

Outro problema que começou a haver: elas começaram a ficar assustadas com a coleira. É que, às vezes, elas corriam e, no final, Puff, quase eram enforcadas. Uma ainda deu um salto triplo mortal para trás e depois veio correndo pra mim, tossindo e chorando. Detesto colocar a coleira nelas. A dona não faz assim e dificulta muito o trabalho, mas foi ela mesmo que disse que queria que elas só fossem lá fora dessa maneira.

Ok, férias é o catzo! Ontem eu já estava a fim de dar um tiro em minha cabeça. Eu quero voltar pra Lausanne!

Hoje, cacá e pipi 0 X 5 André e Jannick

Na verdade hoje estou sentindo uma paz enorme, Já é meio-dia e estou repousado. Dei-me até ao luxo de escrever essa crônica. Não, não assassinei ninguém, mas é que descobri, infelizmente só hoje, a resposta para os meus problemas. Está saindo uma de cada vez. Coloquei a coleira na torneira da mangueira, fora da casa, esticada até aqui a porta. Então quando uma chega à porta querendo sair, eu nem saio mais, prendo a coleira e abro a porta. Tipo assim, dou dez euros pra cada uma que sai e come o que quiser. Fico olhando aqui de dentro, na maior paz, no quentinho, elas cagarem e mijarem quando querem, comerem a grama que quiserem, podem pastar a bosta toda. Como são crianças, é claro que não querem ficar sozinhas lá fora, elas querem é sacanagem, e rapidinho bate aqui na porta: quero entrar, quero entrar. Entra, a outra sai, faz a mesma coisa. A que tá dentro fica na porta eu quero sair também, juntas podemos brincar, mas não, uma por vez, acabou a sacanagem, aprendi o segredo da parada.

Não posso esquecer-me de dois detalhes: o primeiro é que o quintal é belo e a vista também, mas a parte da grama do terreno é como um campo minado. É cheio de caca de cão. E o segundo é que inicialmente só faltou chegar ao ponto delas escolherem o canal da TV para terem o controle total da situação.

Hoje é sábado e estou pronto para almoçar e esperar os donos chegar. Resolvi que não vou demorar muito, pois realmente estou cansado. Vou dormir muito amanhã. Porém posso dizer que nesses dois últimos dias tudo foi um sucesso. Acho que realmente aprendi o ritmo delas. Ontem para não dizer que foi de 0, a mais velha – de novo – fez um pipizinho e um cacazinho dentro, o que, acreditem, é uma grande vitória. Hoje não acontecerá nada parecido, pois pelos vistos o pior é à noite, quando elas têm preguiça de sair por causa do frio, e como vou embora umas três, passo a peteca.


Heidi, por Edgar Allan Poe

Penso que quase toda minha geração chorou ao ver Heidi em desenho animado. Não fui exceção. E, agora, talvez pela memória emotiva que essa garotinha me traz, talvez pelo interesse cultural que tenho vivido, resolvi ler o clássico romance em sua língua original, com a desculpa de que isso seria em prol de meu francês.

Escrito em 1880, pela suíça Johanna Spyri – nome, até então, desconhecido para mim – conta a história de uma pequena órfã que é levada para viver com o "tio dos Alpes", em uma casa perto da aldeia de Maienfeld, na Suíça alemã.

Os personagens do romance estão divididos em duas facções: os puros de coração e o resto, sendo que, ao contrário da vida real, é na primeira facção que encontramos o maior número de integrantes.

Portados pela romancista, deliciamo-nos com as aventuras e a pureza de uma menina de oito anos – missão que a autora desempenhou com enorme sucesso – para, com o decorrer das páginas, descobrirmos que lá se foram os anos em que éramos capazes de chorar por tal simplicidade.

Hoje, minha mesma geração, muito mais próxima de ser colocada na segunda facção do que na primeira, com alguma dificuldade consegue sentir as mesmas emoções que sentiu quando ainda era jovem, graças aos acontecimentos menos felizes que acabaram por macular a nossa sensibilidade e maneira de ver a vida.

Quem não gostaria de voltar a deixar a porta de casa aberta? Ajudar a velha vizinha para poder escutar suas histórias? Sonhar que seremos para sempre felizes e que ninguém querido irá, um dia, morrer? Crer que é possível emprestarmos o nosso bem mais valioso sem a possibilidade de perdê-lo? Pensar que não há fome no mundo e que tudo ficará bem se nós estivermos bem?

Para nós, restou apenas uma nova Heidi, perdida dentro de um conto qualquer de Edgar Allan Poe, cujas cabras se transformaram em gatos pretos e o velho tio em um abusador de menores.

Apenas um último desejo, então, sobreviverá: proteger as crianças. Deixá-las aproveitarem os momentos belos da vida e serem quem realmente são: crianças. É uma missão impossível, já que jamais venceremos a televisão, os jornais, as revistas e os jogos eletrônicos, mas que elas, pelo menos, não cresçam rápido demais, para que possam chorar e rir, pelo maior tempo possível, ao lerem as aventuras e desventuras da pequena Heidi, a órfã dos Alpes.


Inverno Suíço

Meta um agasalho, o vento corta a face, é inverno na Suíça. Dentro de casa estamos confortáveis, um vidro separa dois mundos, mas, se tivermos de sair, ai daqueles desprovidos de mais tecidos. Não que eu more na parte mais fria das Comunidades Helvéticas, mas, já aqui, o termômetro tem marcado, invariavelmente, 0º.

Muitos imaginam que deve ser emocionante ver neve, sair, fazer bonecos, brincar no parque, mas quem me dera que fosse sempre assim. Acreditem, depois de um tempo, nem mais olhamos com atenção para as diversas montanhas brancas que nos cercam. Os famosos Alpes tornam-se enfim vulgares. O mais importante, porém, o mais marcante de um inverno em um país que neva fica marcado pela chegada da primavera. Muito mais visível do que nos países tropicais, é isso que com mais emoção tenho vivido nesses últimos dias. É belo o primeiro floco de neve que vemos cair, divino, mas nada comparado com a primeira flor que vemos desabrochar.

Ah, esse calorzinho a bater no corpo, o dia crescendo novamente, escurecendo, a cada nova jornada, três ou quatro minutos mais tarde, a oportunidade de poder sentar-se de novo em uma esplanada, com uma cerveja gelada, colocar óculos escuros, uma camiseta ligeira, bermuda. Não somos planta, mas como sentimos o alimento que o sol nos dá.

Estação dos apaixonados, não foi nessa estação que nasceu Romeu e Julieta? O casal enamorado de Verona? Depois ainda existem os pássaros, os pardais inclusive, que dão sinais de vida depois de um silencioso vazio. Voltam a cantar perto de nossa janela e a atrair-nos para que abramos os braços para os dias de temperatura mais amena. O ar, que chega até os nossos pulmões, porta a exuberante possibilidade de renascimento da natureza. As árvores renascem, o mundo renasce, o homem renasce.

O homem - o ser - esse complexo que esconde dentro de si próprio outro universo. Suas razões, seus defeitos, virtudes e verdades. Também não é para ele uma oportunidade de renascer a cada novo ano? Que as estações passadas fiquem para trás, deixemo-las partirem, guardemos delas somente as belas recordações, as alegrias e os aprendizados, abrindo espaço para que amanhã a gente ria mais, perdoe mais, ame mais.

Estou apaixonado por uma mulher, é verdade, mas também apaixonado pela vida e, sobretudo, pela primavera, essa bela dama que nos traz uma oportunidade de recomeçar, mais leves, mais serenos, certos da grandeza de cada um desses pequenos seres humanos que nós somos, pequenos em tamanho, mas infinitos em beleza.

Que cada palavra não dita ou mal recebida se transforme em uma bela flor desse nosso jardim. O futuro será sempre diferente, mas que ele sempre melhor.


Letras Cadentes

Gostaria de resumir a história do universo, sem pretensões nem novidades, apenas pelo exercício de criar uma linha contínua e curta que nos ajude a imaginar um pouco mais o lugar para onde estamos indo.

Inicio tudo com uma grande explosão, uma onomatopeia das histórias em quadrinhos: BUM. Onde não havia nada, crio um texto, para surgir, do caos, a comunicação.

Perambulando pela página flutuam ideias sem sentido, palavras ao acaso, à espera de se agruparem graças à massa gravitacional de cada uma, graças a alguma afinidade semântica.

***

Cortando a página, passou um trema voando. Para quem não viu, de novo, só daqui a 262 palavras. Um aglomerado de letras menor lá, outro maior cá e o nascimento das primeiras estrelas - sem luz, não há vida.

Planetas, enciclopédias, cometas, crônicas.

Meteoros, excertos, buraco negro, última gaveta da cômoda.

encanto De tudo ao meu serei Antes, e com tal encante mais zelo, e
sempre, tanto Que em do Dele se face meu e mesmo em cada me vão a momento
meu contentamento E atento do em seu hei de meu
espalhar meu Ao seu E rir derramar maior riso e Quero canto louvor
vivê-lo pranto seu pesar ou assim, mais de imortal, tarde infinito quem pensamento amor procure
sabe a tive): angústia vive amor sabe dizer
posto solidão, morte, fim de quem Quem ama quando Eu possa (que me não seja dure Que
que é chama Mas que Quem seja E enquanto

Acabamos de atravessar um campo de asteroides.

Pare. O universo continua em expansão. Bibliotecas passaram a existir, e um sistema particular foi organizado. Investiguemos, agora, uma de suas menores obras, não muito longe da janela para não congelar, não muito perto da saída para não a roubarem. Chamá-la-emos Terra (falta-me inspiração).

Das amebas tivemos necessidade dos substantivos, dos substantivos vieram os peixes, dos peixes vieram os répteis, depois chegaram as samambaias, os dinossauros, quase o fim do mundo, a era glacial, a mulher, o homem, Machado de Assis e, finalmente, os profetas - profissão esquisita, promotora do fim do mundo, somente é promissora se não formos promissores.

No princípio era o verbo e o verbo eram sem concordância. Criaram as escolas e, com elas, a freqüência escolar. Opa! Um trema! Você viu? Você viu? Nem eles, que estavam mais preocupados com comida, habitação e reprodução do que com outra coisa (não mudamos muito). Honra seja feita àquele nosso antepassado, quem, tentando escrever, desenhou, grafia do hemisfério direito do seu cérebro.

– O que é isso?
– Um gnu! - nascendo também o primeiro diálogo.

E lá fomos nós, publicar.

Primeiro, criamos mais de 200 línguas - trabalho para uma infinidade de tradutores - e, em seguida, o ponto de vista, os direitos de autor, os cortes e as adaptações para o cinema. Aliás, se repararmos, o microcosmo tem refletido invariavelmente o macrocosmo. Queremos uma oração perfeita e que ela seja nossa. Se vier uma vírgula, ótimo, dividiremos a frase com quem precisa. Se vier um ponto final, lamento, é melhor procurar aquilo que você precisa em algum sebo. Nasceram algumas exceções, claro, mas, até hoje, ninguém soube definir o momento exato onde começam a sobrar os adjetivos e o lapso do tempo onde a ideia deve terminar.

E para o futuro...

A capacidade de nos surpreender está diminuindo. No futuro, não existirá mais ópio do povo que nos faça ficar de boca aberta. Mas, enquanto esse dia não chega, enquanto ainda adoramos um entretenimento, continuaremos o nosso papel de semideuses, virando páginas, prosseguindo na escolha entre viver acreditando no prefácio ou no epílogo, entre achar o quanto é melhor não pensar no fim ou tentar engrandecer a literatura, cujo brilho será, sempre, tão pequeno quanto o brilho da mais grandiosa das estrelas (tudo é relativo), mas, como não iremos a parte alguma mesmo, que ao menos a gente continue esta viagem com a companhia de um bom livro.


O Erro

Cometi um erro, e um erro, substantivo que representa o ato de errar, será para sempre um erro. Por mais que você tente consertá-lo, diminui-lo, esquecê-lo, ele será – talvez seja um erro repetir – para sempre um erro.

Terrível ideia...

Perdoem-me, mas não vou falar sobre o acerto. Apesar de este substantivo sofrer do mesmo mal, ele é esquecido com mais facilidade, por mais que isso seja outro erro.

Mas os piores erros são aqueles que podem surgir dos pequenos erros, segundo a nossa relação com os mesmos ou dos terceiros envolvidos. No primeiro caso, temos como costume remoer acontecimentos através dos anos, julgando-nos com impiedade quando, muitas vezes, os outros já nem se lembram do sucedido. No segundo caso, recebemos como praga frases do tipo "que decepção, eu jamais esquecerei o que você fez" e nos aprisionamos a uma infelicidade eterna absurda, quando aquilo que estão tentando fazer é nos ligar a um sentimento implacável de culpa; às vezes, conseguindo.

Na solidão de seu quarto, abra seu coração, conscientize-se do mal que possa ter feito e esteja disposto a responder pelos seus atos (não sou eu quem vai dizer se você errou ou não). A liberdade começa aí. Se tiver a possibilidade de amenizar uma dor, voltar atrás, fazer as pazes, não perca tempo, mas, se é tarde demais para desmanchar o que foi feito, não se martirize, melhor sorte na próxima vez. É bastante conhecido o aforismo: "errar é humano, persistir no erro é burrice", mas quantas vezes ouvimos esta frase sem meditarmos construtivamente sobre o seu significado, que só não erraremos de novo se transformarmos as experiências passadas no alicerce de nossa sabedoria futura? Aprenda com o que aconteceu e cresça, diminua o número de tropeços, mas, sempre que você cair de novo, porque você vai cair de novo, levante-se, sacuda a poeira e volte a andar. Não esmoreça! Nunca deixe de caminhar por causa de ideias destrutivas de que você não é bom o suficiente ou que você nunca fará nada direito. Acertar é humano. Acredito, se tentarmos, que o ser humano é capaz de cometer grandes acertos – e melhor remédio contra os erros não há.

Sobre os erros dos outros: o ser humano está cheio de defeitos e qualidades, então, tiremos daí duas lições: 1 - Não julguemos os defeitos de ninguém para que a gente não admita que nos julguem e 2 - que a gente sirva de exemplo para os outros com os nossos acertos. Aprender é mudar, disse o Buda, e se você acha que não tem nada para aprender nessa área discutida, bem, então esqueça o que você leu. Faça melhor! Considere que eu cometi um grave erro ao escrever esse texto, já que os erros existirão para sempre.


O Garoto e o Velho

O garoto estava sentado na areia, a olhar para o mar. Santiago partira havia mais de dois dias, e o garoto andava preocupado.

“Vamos pra casa, filho.”
“....”
“Santiago está bem. Ele sabe cuidar de si.”
“Eu sei, mãe. Eu sei.”
“Você vai ficar aqui a noite toda?”

Ela foi embora, e o garoto continuou a pensar no amigo.

Santiago não pescava nada havia 84 dias. Falavam que ele se tornara finalmente um “salao”, que é o pior tipo de infortúnio, e, por causa disso, o garoto não estava mais podendo ajudá-lo. Depois dos primeiros quarenta primeiros dias, os seus genitores disseram-lhe para andar num barco com sorte, mas o garoto gostava do velho e lamentava cada um daqueles dias em que tiveram de pescar separados.

Recordava-se da primeira vez que vira Santiago. Ele estava brincando na praia, e Santiago estava recolhendo o seu material. Como os cabelos de Santiago eram da cor das nuvens, o garoto havia pensado tratar-se de um anjo, mas, como Santiago se ferira com um anzol, o garoto havia visto que ele também não passava de um homem comum. O garoto, então, desejara ser um dia como ele.

Pessoas como Santiago eram raras, pensava. Não bastava estar no lugar certo, na hora certa, para pegar o peixe certo. Era preciso ter disciplina, saber o que se queria e não vacilar no momento de agir. Isso era o que fazia do velho homem alguém especial.

Agora acusavam Santiago de estar terminado, e Santiago deveria provar mais uma vez ainda ser um bom pescador; não para os outros, mas para si mesmo. Santiago desejava morrer com os punhos em riste e não ser contaminado com algum tipo de sentimento destrutivo, conformista ou depreciativo. O garoto percebia isso e via em Santiago o mesmo pescador de sempre.

Santiago havia ensinado o garoto a pescar.

“Posso ir com você?”, o garoto dissera quando tinha apenas quatro anos.

Santiago parara de puxar o barco e olhara para o garoto.

“Você quer ir comigo?”
“Quero.”
“Amanhã, iremos pescar juntos.”

Em alto-mar, o garoto vira a habilidade de Santiago e sonhara que um dia teria o seu próprio barco. Ele iria ter o seu próprio peixe e iria provar também ser um bom pescador.

“Por que você quer ser um pescador?”, Santiago disse.
“Porque não me vejo fazendo outra coisa.”

Os dois amavam o mar. O garoto ainda era apenas muito jovem para conhecer o sentimento de se sentir em casa.

Uma brisa levantou alguma areia, o entardecer chegou, e a temperatura começou a baixar. O garoto sabia que Santiago estava pescando o maior de todos os peixes, e ninguém poderia ajudá-lo.


O homem que desistiu de perguntar

- Onde ele estará?
- Quem?
- Ora quem... Ele!
- Shhh... Que isso?! Tá maluco?!
- Covarde!
- Não é uma questão de covardia, é uma questão de respeito!
- Respeito?! Respeito pelo quê?
- Ora... Respeito! Respeito por... por... Sei lá! Respeito!
- Então a covardia mudou de nome.
- Quem é covarde aqui?
- Eu!
- Não seja irônico!
- Vai me dizer que você não está com medo?
- Medo?! Não... Eu apenas acho que a gente não tem de fazer certas perguntas.
- Por quê?
- Porque está tudo bem assim! Porque certas perguntas não deveriam nem mesmo existir.
- Covarde!
- Eu não sou covarde!
- Então por que você não se questiona também?!
- Porque eu sou feliz assim! Porque eu não quero esquentar a cabeça!
- Meu amigo, existe uma grande diferença entre alcançar a felicidade e aceitar as coisas.
- E quem é que disse que eu não posso ser feliz assim?
- Porque você aceitou as coisas para ser feliz e não o contrário.
- Quer saber? Deixe-me em paz!
- Oi, oi, oi! Desculpe! Longe de mim querer ser chato. Eu só estava querendo conversar.
- Conversar ou perturbar?
- Bem, aí, os dois. Eu detesto conversas fúteis.
- Você deveria ser preso por causa desses pensamentos anarquistas.
- E quem é que teria o direito de me prender?
- Eu!
- Tudo bem, mas onde estará ele?!
- Shhhh... Assim eu vou me retirar.
- Retire-se, então! Onde estará ele?! Onde será que ele estará?!
- Polícia! Polícia!
- Onde estará ele?! Lalalá... Onde estará ele?!
- Polícia! Droga! Onde está a polícia quando precisamos dela!
- Você estava mesmo chamando a polícia?!
- Claro que estava!
- Covarde!
- EU NÃO SOU COVARDE!
- Então vá chamar a polícia, vá, seu covardolas!
- Olhe! Escute aqui! Eu não sou covarde!
- Não?! Então por que é que você tem tanto medo das minhas perguntas?
- Por quê?! Por quê?! Porque eu estou cansado!
- Cansado de quê?
- Cansado de fazer as mesmas perguntas e não obter nenhuma resposta.
- Uma informação nova!
- É isso mesmo! Eu costumava fazer essas mesmas perguntas até que, um dia, eu me cansei. Não existe “ele”, não existe “onde ele estará”, não existe nada! Pronto! Agora você pode me deixar em paz!
- Puxa...
- Compreende agora por que eu quero que você pare com isso?
- Compreendo... Mas...
- Mas o quê?!
- Você está enganado.
- Por quê?
- Não é por não pensarmos em algo que esse algo deixa de existir.


O Infinito

Antônio atravessou a Rua Nossa Senhora de Copacabana e parou diante de Maria Pilar.

– Eu te amo. – ele disse.

Maria Pilar deu dois passos para trás e sorriu, e sei que foi por ter sentido certo nervosismo.

Não podia ser. Ela não poderia deixar que aquilo acontecesse. Era uma mulher independente e não poderia permitir que agitassem o mar tranquilo de sua existência.

Ela olhou para trás e correu até a esquina, entrando no primeiro táxi que conseguiu.

– Para onde, senhora? – o taxista perguntou-lhe.
– Para longe daqui.

O taxista dirigiu quase durante meia-hora e parou quando ela disse para parar. Ela pagou-lhe a corrida, saiu do táxi e partiu, e o motorista ficou ali, a observar as costas de seu vestido. Ele questionou-se sobre o que poderia ter-lhe acontecido, mas logo ele voltou a olhar para frente e começou a pensar de novo no seu próximo cliente. Trabalhava na praça havia mais de vinte anos e já vira de tudo, inclusive punks como aquele, a pedir para que o levassem até o aeroporto, dizendo que estava com pressa. Todos estavam com pressa. O punk pagou o novo valor marcado no taxímetro, saiu do fusca e foi para o portão de embarque, para a fila da companhia aérea com a qual iria viajar. Ele deu o seu passaporte para uma funcionária, ela olhou para a sua foto, olhou para a cara dele, folheou algumas páginas do documento e perguntou à sua colega se o seu chefe já havia chegado. Sua colega disse que sim, que ele estava falando com o comandante do avião, para quem ele estava pedindo um favor: levar um urso de pelúcia para uma sobrinha que morava na cidade para onde aquele voo estava indo. O capitão sorriu, pegou o embrulho e entrou no aparelho, sentando-se ao lado do copiloto, um jovem que fora tratado com todo amor e carinho por sua mãe, a empregada mais antiga daquela padaria alemã. E como ela amava aquela profissão. Ela lançou a bola de farinha sobre a mesa, e a violência do ato lançou farinha para todos os lados, assustando o gato, que saiu da cozinha pela porta traseira. Susto maior, todavia, ficou para o galo, que, vendo o felino aparecer no quintal, bateu as asas e pousou em cima do poleiro. A porta do poleiro caiu, o pato bateu as asas, um cão não muito longe ladrou, e o carteiro mais idoso daquela cidade temeu por sua segurança e resolveu entregar primeiro as cartas da casa seguinte, cujo proprietário era seu amigo de infância. Ainda devia-lhe uma cerveja por causa da última aposta que haviam feito e tinha certeza de que iria recuperar a sua perda no próximo jogo, pois, afinal, não era à toa que sua equipe havia pagado tanto para ter Arnold, o zagueiro de mais de dois metros de altura capaz de dar medo aos adversários apenas com sua presença. Diziam que ele era o diabo, diziam que sua estatura era tão grande quanto aquela de uma turbina eólica, mas ele não respondia mal às pessoas por causa disso. Apesar de as turbinas estarem criando tantas controvérsias naquele país, a grande parte daquela população era a favor das energias renováveis. Apenas precisavam tomar algumas precauções, pensavam, já que todos sabiam que aqueles modernos engenhos eram perigosos para os pássaros, inclusive para o Gypaète Barbu, símbolo daquela gente e daquela nação, que tão heroicamente fora criada por Fritz Heins, pai de cinco filhos, avô de vinte netos e bisavô de trinta bisnetos. E não era verdade que preferira o seu filho mais velho aos outros, e sua esposa sempre soubera disso. Fritz amara todos os seus filhos com a mesma intensidade, mesmo quando comprava munições especiais para o seu primogênito no depósito do tio Manfred, cujo longínquo descendente estava agora doente, internado no hospital Friedrichshain Landsberger, sendo tratado pela enfermeira Ana Rodrigues Von Kurows, brasileira, filha de um emigrante alemão. Seus pais haviam partido para o Brasil no meio do século XX e de lá nunca mais haviam voltado; e o casal havia ficado triste com a partida de sua caçula para a Europa, mas havia também ficado orgulhoso de ela ter desejado conhecer a terra de seus antepassados. E, agora, como forma de pedir-lhe proteção aos céus, o casal estava mensalmente dando comida e roupas para a paróquia do seu bairro. Não era muita coisa, mas aquele pouco já fazia a alegria de muitos, de Helena da Cruz, mãe de três filhos, prima do José Gregório, o porteiro do prédio Santo Cristo, no qual Antônio morava.

– Olá, seu Antônio. O senhor tem uma visita. – disse José Gregório, abrindo-lhe a grade da portaria.
– Visita?

Ele olhou para a sala de espera de seu prédio e viu Maria Pilar, de pé, sorrindo. Antônio caminhou em sua direção, e eles beijaram-se.


O Rapaz e o Cavalo

O rapaz está exausto. Ele está há cinco dias sobre um cavalo selvagem, o qual não dá mostras de que vá desistir. O cavalo pula para frente, para trás, dá coices, contorce-se, relincha, mas não consegue derrubar o rapaz. Derrubar-lhe é a sua única saída, pois ele não conhece outra vida se não a de não ter alguém sobre o seu dorso. O cavalo pula para frente, para trás, dá coices, mas não consegue derrubar o rapaz. É um cavalo selvagem, e não há sela entre eles.

O rapaz está exausto. Gotas de suor escorrem por sua face. Seus dedos, emaranhados na crina, começam a doer. Cinco noites e cinco dias assim, pulando para frente e para trás. Cinco noites e cinco dias, sem parar. Mas, de repente, o cavalo para. O rapaz não acredita, e o cavalo busca a água de um rio para beber. O rapaz não compreende e mantém-se atento, mas o cavalo parece mais preocupado em matar a sede do que com ele.

Não adianta. O rapaz tem de se manter em um estado de alerta, agarrado àquela crina. Não sabe ainda se o cavalo desistiu.

Duas horas depois, dito e feito: um cavalo saciado e repousado vale por dois. Ele levanta com violência a sua parte traseira, e o rapaz quase cai. O rapaz agora não tem mais dúvidas, terá de viver durante semanas esta situação para vencer.

E o cavalo pula, pula, pula, dá a entender que se vai acalmar, pula com mais violência, uma violência nova, e continua a pular.

E o rapaz não consegue dormir, não se alimenta, emagrece, mas se mantém agarrado. Sua barba começa a crescer, seus cabelos começam a ficar gordurosos com o suor, e ele continua mantendo a sua mão firme e suas pernas crispadas. Ele tem a sensação de que está há anos ali, mesmo que esteja consciente de que ainda está a viver apenas o início desta provação.

Uma distração, ele quase cai. Ele endireita-se e arranja forças sabe-se lá onde.

O cavalo lança-se de lado contra uma árvore, e o rapaz grita de dor. O cavalo afasta-se da árvore, e o rapaz vê uma enorme farpa encravada em sua cocha esquerda. O cavalo continua pulando, indiferente. O rapaz retira a farpa e lança-a longe.

O cavalo tenta morder a sua perna, dá coices seguidos, e o sangue começa a escorrer da ferida do rapaz. Com uma das mãos, ele rasga a sua camisa e tenta estancar o ferimento.

Durante a noite, o rapaz sente frio, durante o dia, o rapaz sente calor. O cavalo também sente calor, frio e cansaço, mas sua liberdade está em jogo.

"Afinal", o rapaz pensa, "o que eu estou querendo provar? Por que eu quero roubar o que ele tem de mais valioso?" Mas o cavalo também está tentando roubar-lhe o que ele tem de mais valioso, que é a sua capacidade de não cair.

O rapaz sente uma fisgada no peito; é a primeira vez em que ele não se sente capaz de sobreviver a tanto esforço.

A primeira semana termina. Começa a chover. O rapaz olha para o céu e aproveita para beber água da chuva.

A terra molhada torna-se escorregadia, e o cavalo cai sobre a perna ferida do rapaz. O cavalo levanta-se e sente que o rapaz continua lá, agora agarrado ao seu pescoço.

O rapaz começa a chorar em silêncio, e suas lágrimas misturam-se à água da chuva. Ninguém é testemunha de sua luta, ninguém pode ajudá-lo, ninguém é capaz de salvá-lo. Ele está só, e a única saída possível para ele é manter-se ali, até o final. Sua perna dói, ele sente como se seus braços fossem cair, e sua saúde começa a deteriorar-se.

"Até o final. Até o final.", ele murmura.

Terá de esperar um mês? Dois meses? Cinco? Esperará. Ele está certo de que, vencendo, conseguirá o prêmio maior, aquilo pelo que tem lutado.

O cavalo pula, pula, relincha, um relincho agudo, amargo, desesperado. O cavalo chora também, de dor, de medo, de raiva. O rapaz encrava com mais força seus dedos na pele do cavalo e não desiste. O rapaz não desistirá.

Uma vez, ainda garoto, o seu pai perguntara-lhe: "O que é que você deseja ser quando crescer?", "Livre". Ele respondera. Não é uma questão de roubar a liberdade do cavalo ou não, mas uma questão de alcançar a sua própria liberdade.

O cavalo parte correndo, para bruscamente, parte correndo e corre por toda a planície. Ele para bruscamente e volta a correr, corre em direção a uma colina e, lá em cima, levanta as patas da frente por um tempo interminável. Ele baixa as patas e bate-as contra o solo, diversas vezes, com força, levantando poeira e com o intuito de criar um terremoto, desabar o mundo, retirar o rapaz de seu dorso. Ele relincha, e o rapaz quase escuta a voz de um homem a lançar impropérios. O cavalo volta a correr colina abaixo. Ele pula pequenas árvores, para, dá coices e corre em direção a um precipício, aumentando sua velocidade.

"Não será uma tarefa fácil", dissera seu pai, "Eu sei, mas eu não vou a parte alguma mesmo".

Próximo do precipício, a escassos metros, o cavalo para, levanta de novo suas patas dianteiras e relincha. O rapaz range os dentes. A altura do precipício é ameaçadora. Nem ele, nem o cavalo sobreviveriam à queda.

"Vamos!", grita o rapaz, "Não me vai dizer que ficaste com medo!"

O cavalo também range os dentes e se afasta do precipício. Ele não conseguira assustar o rapaz. O cavalo então volta a correr, corre, corre e para. Ele relincha, relincha alto, contorce-se e, finalmente, cai. O rapaz mantém-se ainda agarrado ao animal.

Cinco minutos depois, o rapaz realiza que há algo de errado com o animal. Suas quatro patas começam a correr no vazio, sua cabeça bate duas vezes no solo, e o cavalo olha para trás e para os lados antes de pousar a sua cabeça no chão. O rapaz livra sua perna do peso do cavalo e corre para apoiar-lhe a cabeça.

"Calma, amigo. Calma."

O cavalo olha para o rapaz, e lágrimas começam a escorrer de seus olhos.

"Calma. Calma. Eu estou aqui.", diz o rapaz.

O corpo do cavalo treme algumas vezes, o cavalo solta um suspiro, sua pata esquerda dianteira bate duas vezes no ar, e o cavalo abandona tudo, morto.

O rapaz fica ali, durante horas, a acariciar-lhe a crina. O rapaz também chora.

Quinze dias. Quinze dias a pular para frente e para trás. Quinze dias.

Agora ambos estão livres.


Olhos que veem

Ele acordou, e à escura realidade seus pensamentos retornaram. Despertar de manhã e não sentir a diferença entre abrir os olhos e deixá-los fechados. Limitou-se a tocar os ponteiros de seu relógio com a ponta dos dedos e recordar-se de que era domingo. Ele e sua esposa teriam todo o dia para aproveitar.

Procurando-a, passou a mão no lençol de seda e lembrou-se da noite anterior. Uma alma que sempre buscava o mesmo busto, assim era sua cabeça. O tilintar dos pratos, neste ínterim, e o cheiro de café indicaram-lhe o paraíso.

Sentou-se na beirada da cama e enfiou os pés nos pantufos. Eles não tinham ido a lugar algum. E, a esticar os braços, ouviu estalo.

Nascera assim. Só conhecia uma cor. Se bem que gostava de falar sobre elas. Relacionava-as com sentimentos, recordações e pessoas. O branco quando sentia paz, o azul era sua infância, sua esposa portava o vermelho, e o preto, bem, o preto era a cor.

Levantou-se e ajeitou o pijama na cintura. Virou-se para a direita, deu dois passos, tocou com a mão esquerda o armário, direcionou-se à direita, deu mais três passos – a mão harpeando a madeira – e tomou à esquerda. Deu três passos, saiu do quarto, ergueu a mão à direita, tocou a maçaneta do banheiro e girou-a, abrindo a porta. Fechou-a atrás de si e procurou o vaso ainda um passo à frente. Abaixou a calça e sentou-se para urinar. Pensou em uma chuveirada, mas almejava um café. Sacudiu seu corpo e levantou-se junto das calças. Voltou-se para o lavatório, tratou dos dentes e das mãos – não nessa ordem –, lavou a cara, passou a mão nos cabelos para trás, pegou a toalha de mão, enxugou-se e saiu do aposento, fechando novamente a porta.

Volveu à direita, continuou no corredor por dois passos e pisou na calda do gato. O miado foi tão estridente que o bípede sentiu mais dor que o felino.

Sua mulher veio até eles por causa do rumor, e do tamborim não havia mais sinal. “O que houve?”, ela disse, “Você pisou de novo no gato?”, e ele, com uma mão no peito, lamentou. “Pisei...", ele disse. Adorava aquele gato, mas, às vezes, pensava que o animal estava a mais dentro daquelas paredes.

“Venha.” – ela continuou com bom humor.

“O café está pronto."

“Espere.”, interrompeu-a. Ele esticou os braços na direção de sua amada e aproximou-se até tocá-la. Tocou primeiro suas mãos e seguiu através de seus braços e de sua silhueta, como se fosse uma trilha que havia sido deixada ali havia tempos para ele.

Seus cabelos estavam presos, e ele explorou os contornos de suas bochechas e de seu queixo. Ela estava sorrindo. Para ele, aquela era uma experiência que sempre fazia como se estivesse fazendo pela primeira vez.

“Bom dia, princesa. Você está linda.”

Jamais havia conhecido mulher mais bonita. Ele sentira-se o maior dos afortunados no dia em que descobrira que ela também o amava.

“Você acha?”, ela disse, e ele foi capaz de ver sua cor. Um beijo marcou o momento.

Ela puxou-o pela mão, levou-o até a mesa da cozinha e, depois, procurou novamente a pia. “Fiz um bolo”. Ele agradeceu e fingiu surpresa, pois tinha sentido o odor de chocolate assim que entrara na cozinha. “Você é incrível.”, ele disse, e ela lhe lançou mais um beijo.

Ela procurou com as mãos o lugar onde tinha deixado o bolo e foi até a mesa. Voltou para pegar a cafeteira e sentou-se junto dele.

“Meu amor...”, ele disse, “Não sei o que seria de mim sem você”.

“Nem eu.”, ela apalpou a mesa à busca de sua mão.

Enfim, o gato reapareceu; atraído, talvez, pela forte luz que vinha daquele aposento.


Oração de um quase ex-alcóolatra

Neste mar de conflitos, deixamo-nos penetrar em nossos sonhos mais temidos. A tempestade que cai, fraca e eterna, transforma-nos a todos em histórias em quadrinhos, heróis, cômicos, infantis e quadrados. Partimos de uma natureza cega e ignorante e caminhamos para algo parecido com um bonsai podado.

Lembra-se de como éramos corajosos? Ríamos de tudo e chorávamos quando não ganhávamos uma goma-de-mascar, queríamos o mundo, e o mesmo mundo ruía quando não conseguíamos os nossos objetivos. Mas é claro que isso foi antes do inverno, antes da estação que começou a destruir nossos desejos frustrados com o objetivo de nos transformar em pessoas melhores. Começamos a aceitar a vida da maneira como ela veio, arrasadora como um napalm, para um dia chamarmos a isto tudo de maturidade.

Gostaria que me deixassem um pouco em paz. Gostaria de morrer um pouco angustiado por não ter conseguido tudo o que quis desta vida, morrer incompleto.

– Deus, O Senhor está aí? Não destrua tão rapidamente o que eu tenho de pior. Sinto-me fraco com esta imobilidade dos sábios, santos e profetas. Ainda quero morrer com uma explosão do meu ser ao invés de um dia, simplesmente, parar de respirar; quero morrer sem ter tido tempo para meditar sobre os fracassos e os sucessos que tive na vida; quero apenas viver, viver da maneira mais plena possível.


Oração de um quase ex-alcóolatra II
 
Hoje comemoro 50 dias sem beber. Pra mim, muito.
 
Não estou aqui para dizer que nunca mais irei beber. Pois, mesmo que eu nunca mais beba - o que não acredito - penso que eu continuarei para sempre com essa vontade.
 
Há 14 anos que não fico tanto tempo sem beber.
 
Há 25 anos comecei a beber, ou seja, um quarto de século bebendo.
 
Tenho os meus próprios motivos.
 
Não quero beber para esquecer que a desigualdade habita o mundo, mas quero ser capaz de ser feliz e agir mais, consciente de que ela existe.
 
Não quero beber para menosprezar meus problemas, mas quero ter forças para consertar aquilo que pode ser consertado e aceitar aquilo que não o pode ser.
 
Não quero beber para conseguir ser mais sexy e engraçado durante um jantar romântico, mas quero que a mulher com quem eu esteja seja capaz de ver essas qualidades em mim e de aceitar os meus defeitos.
 
Não quero beber para ser um cara divertido e, para isso, procuro recordar-me de que Charles Spencer Chaplin nunca bebeu.
 
Não quero ter de ouvir coisas do tipo: "Que isso... Um copinho não faz mal a ninguém…" como se "não beber" fizesse de alguém uma pessoa anormal e não quero fazer mal ao meu corpo, pois, afinal, só tenho esse.
 
Estou cansado desse atalho para o início, desse Jogo das Cobras e das Escadas onde sempre voltamos pra casa primeira.
 
...
 
A possibilidade de me verem bebendo em um futuro próximo é enorme, mas quero deixar claro aqui o que desejo.


Os livros não dormem jamais

Minha namorada e eu vivemos em Lausanne, na Suíça, e nosso apartamento fica na frente do Museu de Arqueologia e de História da Place de la Riponne. Aliás, não é apenas a fachada renascentista do Palais de Rumine que podemos ver de nossa varanda, mas também os Alpes franceses, o Lago Léman e o campanário de uma catedral do século XIII. Uma vista de tirar o fôlego. Clichê?! Vários! Tenho tirado inúmeras fotos dessa praça e sei que jamais conseguiria repetir o mesmo clichê em dias diferentes, mesmo se quisesse. Fotos em dias de sol, em dias de chuva, em dias de nevasca, de fogos de artifício, de relâmpagos, de arco-íris, de luzes de natal. Um disco rígido cheio.

E tudo ia muito bem até a semana passada, quando descobri que o tal museu também abrigava uma biblioteca. Foi o fim das minhas noites de paz. Agora, no final de cada dia, ao invés de fechar os olhos e tentar dormir, vou pra varanda e solto os cães da minha imaginação, ao tentar imaginar aquilo que deve estar se passando dentro do magnífico prédio.

Estará Hamlet vagando pelos seus inúmeros corredores? A citar o seu famoso monólogo? E numa sala vizinha? Estará o Marquês de Sade se divertindo à grande e à francesa? Com as Alegres Comadres de Windsor e a Madame Bovary? Culpa minha, a confusão foi armada.

Alice correndo atrás do Coelho Branco, que também estaria fugindo de Robinson Crusoé e de Sexta-feira, que finalmente encontrara a sua família dentro de um calendário.

O Chapeleiro Louco lendo as Portas da Percepção; o Alienista esperando Godot; o Príncipe lendo A Arte da Guerra; Jack, o Estripador, folheando as obras de Freud; e o Jogador, por sua vez, estudando manuais de pôquer.

Siddartha batendo um papo cabeça com Maomé, Jesus e Robert Langdon.

Em uma das torres o Fantasma da Ópera; noutra, o Corcunda de Notre-Dame.

Na cave, o Homem da Máscara de Ferro, as Vinhas da Ira e a famosa máquina de Júlio Verne, pronta para explorar O Inferno de Dante.

Drácula perseguindo o Chapeuzinho Vermelho; a Múmia com medo do calor de "Fahrenheit 451"; o Grande Irmão de 1984 na sala de vigilância; Oliver Twist sendo acusado do desaparecimento da maça do Antigo Testamento, impossibilitando Guilherme Tell de acertá-la; e a carcaça de Moby Dick empacando a circulação na ala norte, após ter sido pescado por um Velho cubano.

Raskolnikov pronto para matar o Mercador de Veneza; MacBeth tentando escrever o seu Capolavoro; o Conde de Monte Cristo cavando um buraco para sair na portaria do meu prédio; João Valjean lutando contra Frankenstein; Poliana brincando com Heidi e com os habitantes de Liliput; Dom Corleone tentando se livrar de um Processo; Helena de Tróia fugindo com o Grande Gatsby para os Estados Unidos – e lá iríamos nós para a Guerra dos Mundos.

Dona Flor dando conselhos matrimoniais para Mrs. Dalloway; Gulliver voltando para casa com a ajuda de Os Lusíadas; e os Quatro Mosqueteiros tentando manter uma ordem em tudo isso.

Robin Hood roubando as minas do rei Salomão para dar de comer aos Capitães de Areia; Dorian Gray procurando o seu retrato, que emprestaram, por engano, ao Museu do Louvre; e Ana Karenina passando uma Estação no Inferno, antes de se atirar na frente do Expresso do Oriente.

Três horas da manhã, e ainda estou acordado.

O problema é que com isso, comecei realmente a dormir mal. Basta ouvir agora um barulho na rua que acordo sobressaltado e fico tentando adivinhar os motivos que geraram tal rumor.

Don Quixote a fazer investidas contra as turbinas eólicas da Grécia? Os terremotos de Richter Nove? O vulcão de Pompéia a entrar em erupção? Dr. Hyde, que virou monstro, a destruir a coleção de bichos empalhados do museu?

Resolvo investigar.

Minha namorada já dorme, o que acho ótimo. Não seria fácil explicar-lhe os meus motivos.

- Aonde você vai?
- Abrir as janelas do museu para que o Peter Pan possa sair.

Prefiro não compartilhar meus intuitos com ela – e manter minha dignidade – e saio, à surdina.

A noite está fria. Os carros e os habitantes de Lausanne dormem. Atravesso a rua e a praça e olho para trás. As luzes do meu apartamento continuam apagadas.

Chego ao museu e espreito através de uma janela, mas tudo que vejo são trevas. Esquivo-me de abertura em abertura, mas nada. Começo a meditar sobre o ridículo de minha situação. Que explicações eu daria à polícia para explicar a razão de minha presença? Seria o meu pobre vocabulário da língua de Molière capaz de evitar que eu parecesse ridículo, algo que imagino estar sendo?

E um segundo antes de desistir da louca aventura e voltar para o conforto da minha cama, surpreendo uma pequena luz no interior do imóvel. Uma vela a bruxulear e a circular rebeldemente. Ainda penso em ignorá-la e dar as costas à descoberta, mas sempre fui curioso demais para deixar as coisas em aberto. Resolvo, então, empurrar a janela e qual a minha surpresa ao ver que ela está aberta.

Meu coração bate com toda a força. A adrenalina é lançada em enormes jatos no fluxo da minha corrente sanguínea. Não me esqueço da minha situação de estrangeiro e, com a consciência de poder ser expulso do país, galgo o parapeito da janela e me atiro para dentro. Caio desajeitadamente. Levanto-me nervoso e fecho a janela. Sento-me no canto da sala e rezo para que o barulho não tenha chamado a atenção de alguém.

Depois de alguns minutos de suspense, após ter certeza de que a minha presença ainda estava sendo ignorada, levanto-me e vou até a porta do aposento, por onde vi passar a vela. Coloco a cabeça no corredor, olho para um lado, para outro e nada vejo.

- Alô?

Digo, desprezando a intransigência do meu ato.

Nenhuma resposta.

Com passos vacilantes, inicio a percorrer o local. Alguns passos, outra porta, olho para dentro, ainda nada. Outros passos, outra porta, ninguém. E a pessoa que estava segurando aquela vela? Onde estará? Contudo, bastou terminar esta frase mental para vê-la aparecer no final de um corredor e começar a vir em minha direção. Não tenho tempo de fugir e nem forças. Minhas pernas se fincam no chão. Será o fim do mistério e... a prisão certa?

A luz se aproxima e percebo que, afinal, não se trata de uma vela. Velas não flutuam. É algo que voa e que resolve passar por mim rapidamente.
Viro-me e corro atrás dela. Faço cada curva que ela faz e entro por cada porta que ela entra, no intuito de agarrá-la. Às vezes deixo de vê-la, mas a sua luz deixa um rasto tão luminoso que meu trabalho é facilitado.

- Sininho? – grito.

Sininho? Devo estar louco. Todavia, se estou mesmo perseguindo a fadinha, onde estarão os outros?

Paro e a luz vai embora, e, para minha desolação, percebo que não existe mais nenhum outro foco de luz ao meu redor. Tudo está escuro. Nem sei mais onde estou, e, pela primeira vez, temo pela minha segurança. Olho para os lados, não vejo nada e me sinto, afinal, observado – por dezenas, talvez centenas, de olhares.

Estarei no Livro da Selva? Ou no meio da discussão comercial entre Fausto e o Diabo? Ou estarei sendo observado pelos piratas do capitão Gancho?

Engulo seco. Maldita a hora em que me tornei esta pessoa obsessiva e inquisidora. Quando foi? Quando foi exatamente? Quando eu recebi pela primeira vez um livro de presente e não parei de lê-lo até ler o seu final? Ou foi na primeira vez que sonhei escrever um livro? Paixão esta que despertou em mim o prazer pela maior de todas as viagens: aquela no interior da imaginação?

Escuto uma risada demoníaca, um TIC-TAC crescente, um rumor tão alto que sou capaz de jurar que a península Ibérica está a caminho, ou que Júpiter está se tornando um novo sol. Um cão a ladrar. Um carro ciumento a acelerar. Corvos voando de galho em galho.

- Quem está aí?

Termino a frase, e alguém segura a minha mão.

- Venha comigo.

Ela me puxa para fora dali.

Quando, enfim, chego a uma sala iluminada pela luz da rua, vejo que eu havia sido guiado por um menino de cabelos dourados.

- Quem é você? – pergunto-lhe.
- Você sabe desenhar uma ovelha?

A criança me responde com outra pergunta e não para de andar, até que reparo estar na frente da janela por onde entrei.

- Mas...
- Eu sei. – disse o menino – Mas é melhor você partir.
- Eu não posso ficar mais um pouco?
- Não é seguro.
- Mas eu sinto que existem tantas coisas para serem lidas aqui!
- Você sempre poderá voltar quando a biblioteca estiver aberta.
- Quer dizer que...
- Exatamente.
- ...
- ...não fique triste...
- Ninguém acreditará em mim.
- Não se preocupe. A sua missão não é essa.
- Entendo. – faço uma pausa – Príncipe...
- Sim?
- Obrigado.

Ele me fita paternalmente e sorri. Pulo para fora do museu e escuto a janela sendo trancada atrás de mim.

Chego a casa e me deito.

- Onde é que você se meteu?

Minha namorada me pergunta sem abrir os olhos. Deixo escapar uma iluminada face de paz e abraço-a.

- Eu fiquei sem sono e resolvi escrever mais um pouco.

Estava feito.


Poesia a um Amigo

A poesia não é minha área.
Pra começar,
detesto a métrica.
Depois,
verificar a musicalidade de cada frase,
forçar para que uma frase termine em crase,
detesto.

A coisa soa bem ao meu ouvido ou não.
Mas contar as sílabas,
procurar as palavras que se encaixem,
detesto.

Prefiro uma palavra que signifique melhor o que eu sinto
a outra somente porque é proparoxítona.
Prefiro uma frase confusa, se o pensamento é confuso,
a uma frase vazia mas cheia de técnicas.

Anseio a liberdade
e tento refleti-la naquilo que escrevo.
Por isto,
pensei em escrever-te uma poesia,
mas quis avisar-te sobre o que não esperasses:
técnica.


Saint-Prex

Os trinta graus de hoje recordam-me: como alguém pode sobreviver quando a temperatura ultrapassa os quarenta? Sobrevivendo-se. O ser humano tem a incrível capacidade de se adaptar, provam-nos os exemplos.

Podemos encontrar pessoas nos lugares mais tórridos do planeta e nos mais gélidos, nos lugares mais miseráveis e nos... ainda mais miseráveis. Sem nos esquecermos das grandes cidades, já no inconsciente coletivo como a pior das selvas: os hospitais públicos, as prisões lotadas, as sombras dos viadutos, os lares que abrigam inimigos, os escritórios competitivos... Somos uma espécie capaz de surpreender!

E o irônico nisso tudo é que, ao sentirmos sede, o lógico seria, dentro das possibilidades, que tentássemos ir à busca de água, ao sentirmos fome, à busca de alimentos, ao sentirmos os males de uma superpopulação, ao encontro de uma melhor qualidade de vida, mas não é dessa forma que reagimos. Curiosamente, muitas vezes preferimos nos adaptar a uma situação desconfortável a buscar um lugar onde poderíamos ter uma melhor qualidade de vida (claro que existem indivíduos que dirão que são felizes onde estão – uns mais sinceros que outros – ou que dirão que amam o lugar onde vivem – uns mais acomodados do que outros – mas esses seriam objetos de um estudo à parte), transformando, por fim, uma qualidade em defeito.

E, confessemos, de comodistas todos nós temos um pouco.

Não suportamos o trabalho, mas continuamos nele, afinal, a felicidade de terceiros depende do nosso sacrifício; não podemos mais com um barulho, resmungamos, mas nos esquecemos da máxima dos incomodados que se mudem; detestamos as coisas que nos dizem, discutimos, mas, dificilmente, mudamos a nossa própria maneira de ser.

Adoro nadar. Mergulhar o corpo totalmente dentro da água é uma espécie de renascimento para mim, mas há tempos que não ia à busca dessa minha satisfação.

Tenho perto de casa a praia de Vidy, uma espécie de Aterro do Flamengo suíço para onde vão, nos finais de semana, grande parte dos habitantes de Lausanne. Nada diferente do referido quintal carioca. Churrascos com amigos, diversão com a família, farofada. Não julgo ninguém e procuro não dizer que sou eu que sei o que é bom, mas isso já não me agrada. Além da falta de respeito pelas toalhas vizinhas, o que invariavelmente acontece, nadar é impossível, de acordo com estranhas algas que insistem em flutuar pela superfície das praias de Lausanne do lago Léman.

Enfim, hoje, no último domingo do mês de Julho, resolvemos seguir um conselho de um jornal gratuito local e pegamos vinte e cinco minutos de trem para conhecer uma pequena praia em St-Prex. Foi mais caro, dispensamos um esforço maior, mas qual não foi a nossa estupefação quando não só encontramos um tesouro de vieille ville como também um ponto menos frequentado e uma água cristalina, sem termos de mudar de lago.

Algo que foi a primeira coisa que fiz ao chegar: fiquei de sunga e mergulhei. Nadei e batizei-me de novo. Limpei-me de todos os males e pensei: “Começarei de novo!”.

– Obrigado, Senhor. – disse ao voltar à tona, algo que sempre sai naturalmente de minha boca após um mergulho.

Existirão sempre pessoas em todos os tipos de ambientes do mundo, mas a única maneira de ser da qual eu discordo é aquela em que se vive uma aceitação quando a pessoa não está satisfeita.

O que fizemos para achar que devemos continuar infelizes? Quem disse que uma pessoa não pode mover os céus à procura de sua própria alegria?

Mas não estou aqui para tentar convencer ninguém dessas coisas. Muitas vezes, quando um escritor desenvolve este tipo de dissertação, é somente porque ele quer apenas se apoiar, pois, como disse um amigo meu: “ninguém disse que seria fácil”, e uma palavra amiga, nossa própria ou da boca dos outros, sempre nos portará para mais longe.

Mudar não é fácil, vencer a inércia é o mais difícil, mas recordemos o que Clarice Lispector escreveu: nunca faça o mesmo caminho para o seu trabalho, pois você poderá ter belas surpresas; belas surpresas como a praia de Saint-Prex.


Sonata de Lausanne

Primeiro Movimento
(allegro con spirito)

A areia do deserto escorria, recordando uma ampulheta sem fim, mudando dunas de lugar e soterrando, continuamente, impérios vencidos. Não existe nada mais forte que o vento, dizem os tuaregues, pois o sol nasce e morre, a lua brilha e se esconde, mas o vento, fraco ou forte, nunca deixa de soprar. E é nesse mar chamado deserto – região inóspita para alguns, lar para outros – que começa a nossa história.

Ele cavalgava só, enrolado num turbante; sem pressa e sem destino; sem nada nos bolsos e sem ter deixado nada para trás, portando apenas a certeza de poder encontrar, nesse tipo de paisagem, o essencial para a sua sobrevivência. Seguia para não parar, cessava de mover-se para repousar. Comia quando sentia fome e bebia para não ter sede. Seu nome era Ahamarã, que significa: guiado por Deus.

De personalidade difícil, capaz de sorrir para uma serpente e chorar por causa de um pôr-do-sol, era alguém cuja autossuficiência conquistara, tanto material quanto espiritual. Conheceu diversas cidades e viveu a segurança de um lar, mas, abrindo mão de tudo aquilo que possuiu de mais valioso, encontrara a sua própria liberdade.

Mestre de arte rara, reconhecia, com antecedência, a aproximação de uma tempestade; via coisas onde um olhar deseducado nada seria capaz de ver e percebia, a quilômetros, a existência de algum oásis. Místico – psicótico para os descrentes –, orientava-se com a ajuda dos pontos cardinais e pela certeza de que sempre encontraria aquilo que buscasse. Era a fé que movia o homem, mas o homem que controlava a vida.

"Ahamarã, Ahamarã, parido de mulher, para onde vais?"

Para alguns, o deserto é o lugar mais rumoroso do mundo. Contudo, para Ahamarã, ali se tornara sua realidade e casa.

A serenidade de saber que a solidão é apenas um meio e não um fim: um dos muitos caminhos para domarmos os nossos próprios sentidos e para aprendermos a como nos satisfazer com pouco – um dos muitos atalhos para um lugar onde recordaremos o passado sem ansiedade e nos conscientizaremos de que a felicidade não está nos ópios da vida, mas sempre presente, apenas a esperar pelo nosso abraço. Felicidade: esta linda mulher que não vence e nem perde, que não sai vitoriosa e que nunca será derrotada.

– Para onde vais, meu filho?
– Vou até ao fim do mundo, minha mãe. Até ao fim do mundo.

O seu cavalo trotava, deixando, para trás, uma cicatriz temporária, e ele sorria, imaginando um futuro capaz de tudo, menos de ser apenas uma repetição de seu próprio passado.

"Ahamarã, amado por uns, odiado por outros, o que mais esperas?"

Segundo movimento
(adagio)

A metade de seu corpo estava soterrada. Ahamarã antecipou a tempestade e abrigou-se a tempo num rochedo. Entretanto, como a tempestade fora violenta e durara horas, a mesma rocha que o salvara, servindo-lhe de refúgio, impedia-o agora de se mover, pois uma grande quantidade de areia fora represada ao seu redor.

Intempérie bizarra. Jamais havia visto um remoinho tão devastador e repentino como aquele. Toda sua noção de sobrevivência ficou reduzida a correr até às brechas de uma montanha, enquanto, ao seu cavalo, restou apenas precipitar-se na direção contrária.

– Espero que ele não tenha sofrido...

Sem nenhum apoio para se desenterrar, Ahamarã olhou para cima e viu o céu por uma abertura. Tinha de fazer algo antes que o frio noturno chegasse, ou encontraria, naquele mesmo ambiente que fora testemunha de seu renascimento, seu túmulo.

Ele movimentou-se com força e nada. Cada pequena folga que conquistava era imediatamente preenchida por mais grãos. A consciência de seu apuro. A improbabilidade de salvação.

Se bem que a força de vontade não era para ali chamada. Uma lição que ele também tinha aprendido era que ele poderia viver com o deserto, retirar dele a água da vida, mas nunca poderia superá-lo. A eternidade é longa, o infinito é distante, e, como ser humano que encontrara sua autonomia, Ahamarã sabia que um dia chegaria o momento no qual ele deveria apenas aceitar.

Mas ainda era cedo para desistir. Ele juntou mais forças, respirou fundo e prendeu a respiração. Tentou ocupar o maior espaço possível ao seu redor. Sua única chance estava em alcançar a parede maciça, e, sendo assim, tinha de unificar todo seu esforço numa só tentativa.

Ele, então, contou mentalmente até três, espirou como se seu corpo explodisse numa só direção, mas, de novo, nada. Nem um centímetro de liberdade física, independente do estado de seu espírito.

Os minutos correram, transformaram-se em horas, e o céu começou a escurecer. Ele ainda identificava as cores do deserto, mas a temperatura descia rapidamente. O frio, o frio que amortece a alma e facilita as coisas.

Mas, afinal, para que sair dali? Por que ele sairia dali? No momento que havia se libertado da ansiedade, dos sentimentos de posse e de todos os prazeres temporâneos da vida, qual seria o motivo ao qual se agarraria para tentar escapar de uma morte certa? Não tinha mais ambições, não queria possuir mais nada, estava bem, sereno, então, não seria melhor se deixar levar e... aceitar? Não era melhor relaxar e partir para o mundo etéreo, já que nada mais ali atraía sua paixão? Já que nem mais paixão ele tinha, somente aquele estado inquebrável de tranqüilidade?

Morrer, partir, voar... Como um grão de areia, soltar-se ao vento, ir embora, para bem longe, para longe do mundo dos vivos e do reino das ilusões. Fazer parte de tudo e voltar para o lugar de onde havia vindo.

Ahamarã abriu os olhos e percebeu que tinha cochilado e teria voltado a cochilar se não fosse um movimento no lusco-fusco. Era um rato. Uma pequena e maravilhosa criatura, pensou.

Quando estamos no meio das cidades, na multidão, esbarrando-nos com milhares de pessoas que não procuramos conhecer e esquecemo-nos do mais importante de tudo: o valor da vida. Do valor de uma vida que seja. Ali, sem nenhuma alma por perto, ver a mais insignificante forma de existência era a força da natureza mais valiosa que ele poderia encontrar. A divina vida e o direito de viver de cada um, da maneira mais digna possível.

– Desejo-te toda a sorte do mundo, pequeno.

E Ahamarã dormiu de cansaço e sede.

Sonhou que caminhava num deserto durante um dia infinito, jamais dividido pela noite. E ele caminhava e caminhava, com o sol sobre sua cabeça, com dunas a sua frente, e mais dunas, e nenhum oásis. Finalmente, depois de uma eternidade, ele enxergou um vulto quase imperceptível no horizonte, com roupas escuras, vindo em sua direção. Ahamarã continuou caminhando, e, como aquele outro alguém também não corria, a expectativa se tornou interminável.

Quando ficaram, enfim, mais próximos, Ahamarã começou a definir os traços do viajante. Talvez houvesse tanta idade quanto ele, e o outro se tornou mais próximo, mais próximo, até que, parado diante do estranho, Ahamarã se reconheceu. Era ele próprio. Ahamarã estava diante de si mesmo, com as mesmas roupas e as mesmas rugas. Ele esticou a mão para tocá-lo e o seu outro "eu" fez o mesmo. Quando estavam, todavia, perto de se tocarem com os dedos, Ahamarã sentiu o contato frio de uma superfície entre eles. Ele espalmou a mão, ambos espalmaram, e tocou com sua palma uma superfície lise, reparando que aquele outro alguém era na verdade o seu reflexo.

Ahamarã olhou para o chão, para os lados e para cima e percebeu que tinha chegado diante de um gigantesco espelho, tão enorme que ele era incapaz de ver o seu fim ou imaginar se este existia. Ahamarã agachou-se para cavar um pouco e imaginou que o espelho também seguia até às entranhas infinitas da terra.

Ahamarã colocou-se de pé e olhou para si mesmo. Lembrou-se de como havia partido jovem e como havia mudado, até que sua imagem finalmente falou para ele:

"Fim do passeio, Ahamarã."

Ahamarã acordou e ouviu rumores do lado de fora da gruta. Eram passos de montaria e o murmúrio de pessoas.

– A vida... – ele murmurou e depois começou a gritar.

Ouvindo-o, algumas pessoas começaram a cavar em sua direção, até que ele sentiu algumas mãos a puxarem-no para fora e água a tocar-lhe os lábios.

"Ahamarã, homem mortal, teu dia ainda não chegou."

Ele acordou de seu desmaio e a primeira coisa que viu foi um negro tapete de estrelas. Ele estava deitado e coberto. Seu corpo estava aquecido, e ele sentia-se protegido. Ahamarã girou com alguma dificuldade a cabeça para o lado e viu três estranhos a conversarem do outro lado de uma fogueira. Fora salvo e, agradecido, dormiu novamente.

Terceiro movimento
(allegro gentile)

Dizem que os habitantes do deserto são aqueles que mais acreditam em Deus, porque: por terem sido mais expostos ao silêncio, acabaram por ouvir mais o universo e por não terem tido muitas cores que os distraíssem, acabaram por olhar com mais profundidade para as coisas. Contudo, não é o fato de acreditar em algo que deveria definir uma pessoa, mas o que cada uma dessas pessoas faz sem esperar por um retorno. Um ateu que ajude alguém tem muito mais valor que um crente que faça algo à espera de alguma recompensa.

Ahamarã acordou e sentou-se junto de seus salvadores. Queria aproveitar de mais perto o calor do fogo. E foi o que estava mais próximo dele aquele que falou:

– Já era hora. Vamos, coma...
– Obrigado.

Ahamarã esticou o braço e arrancou uma lasca do cordeiro que estava sendo grelhado.

Permanecera três dias deitado, a recuperar-se. Portadores de remédios naturais, aqueles senhores deram-lhe de beber e comer, e, agora, não era com menos satisfação que o viam recuperado.

– É melhor vires conosco. Não temos muito, mas, afinal, irás precisar de uma nova montaria.
– E para onde ides?
– Para Belém.
– Belém...
– Conheces alguém que te possa ajudar na Judéia?
– Não.
– Poderemos apresentar-te a algumas pessoas.
– E o que buscais? Sois mercadores? – disse Ahamarã.

Os três sábios entreolharam-se.

– Não. Estamos indo para o nascimento de alguém.
– Perdão, jovem, como te chamas?
– Ahamarã.
– Ahamarã, guiado por Deus...
– Ao vosso serviço.
– Eu sou Baltazar. Esse é Gaspar e o calado ali se chama Melchior.
– Deus seja convosco.
– Escapaste de uma, hein? – disse Gaspar.
– Não sei como agradecer.
– Somos apenas instrumentos. – concluiu Melchior.

A pequena caravana levantou acampamento e continuou seu caminho rumo a este. Assim como Ahamarã, os três homens também conheciam a cartografia escrita nos céus.

"Ahamarã, Ahamarã, ainda não vistes nada."

Bastaram três dias de cavalgada até à referida cidade hebraica. Chegaram durante o dia e, como eram pessoas importantes nas cidades de onde vieram, procuraram a autoridade máxima daquele estado, a fim de comunicarem suas presenças. E intenções.

Ahamarã esperou pelos sábios fora do grande palácio, após ter sido encarregado da montaria e compra de mantimentos – a confiança que estranhos podem depositar em nós será sempre uma dádiva descida sobre as nossas existências.

Ao cair da noite, porém, Ahamarã, que ainda os acompanhava, compreendeu que algo realmente estranho estava acontecendo. A estrela que seguiram, nova no céu, não passara apenas a ser a estrela mais brilhante que já vira, mas também passou a emitir, num vertical perfeito, um fino raio de luz.

Ali estava a criança que procuravam.

Eles aproximaram-se do que seria uma manjedoura, e Ahamarã viu os três homens darem valiosos presentes para o recém-nascido. Reverenciaram-no como se ele fosse um rei, e os pais da criança se mostraram muito agradecidos.

Horas passaram, e os homens resolveram partir.

– Ahamarã, amanhã iremos falar com um ferreiro que poderá ajudar-te a começar uma nova vida.
– Baltazar, não se preocupe comigo. Eu vou ficar por aqui.

Baltazar olhou para seus amigos, para Ahamarã, e sorriu. Compreendia sua decisão.

– Fique com Deus, jovem.

Os três homens acenaram e partiram, e Ahamarã ficou ali, a olhar para as estrelas.

Era tarde quando ele sentiu um toque em suas costas. Virou-se assustado e, ao reconhecer o seu cavalo, levantou-se depressa. De alguma maneira ele também havia escapado da tempestade. E, como se estivesse diante de um homem, Ahamarã abraçou-o como a um irmão, para, entre lágrimas de alegria, dizer:

– Estamos em casa, meu amigo.


 
 
 
 
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