Natal de prata

Jornal Destaque, 2015

Dia 24 de dezembro (de 2015), meu filho terá um dos melhores Natais de sua vida. Digo isso porque, na próxima quinta-feira, com apenas – quase – três anos de idade, ele ainda não terá feito nenhuma lista daquilo que gostaria de receber, ainda não terá noção de que em breve irá ganhar vários brinquedos e será – como já tem mostrado – grande o bastante para reconhecer uma noite distinta.

Lembro-me de quando eu era pequeno e brincava com os meus primos perto da árvore de Natal, apenas para identificar os meus presentes.

Neste Natal, meu filho ainda não fará isso. Ele nem mesmo suspeitará da sua prima. Neste Natal, meu filho ainda terá dois anos e dez meses, muito antes de começar a ganhar roupas e muito, muito antes de começar a ganhar apenas meias. Meu filho ainda será o meu bebê. O nosso bebê. Muito antes de saber que o Papai Noel se vestia apenas de verde e muito, muito antes de entender que a comunhão do Natal se limita normalmente aos membros de uma família; porque precisamos ter lembranças de uma pessoa para poder abraçá-la, ter uma história com alguém para abrirmos o nosso coração e saber onde uma pessoa mora para chamá-la de vizinha.

Neste dia 24, não. Para meu filho, ainda farei parte da sua Santíssima Trindade. A sua mãe e eu ainda seremos, dentro da sua minúscula realidade, os dois outros episódios da sua única trilogia. “Papa, maman et Tiziano!”. Ele chegará à casa dos meus sogros, beijará os seus parentes e, depois de tirar o casaco e as botas, irá correr com a prima, feliz da vida, sem entender por que eles não podem se afastar da árvore iluminada.

– Atenção, filho. Cuidado com a árvore.

E eu estarei lá, sentado à mesa, de olho para que ele não se machuque. E eu estarei lá, distraído com a minha taça, torcendo para que a campainha toque.

Eu, então, me levantarei, olharei através do olho mágico e verei um estranho. Terá ele a mesma religião que a minha? Será melhor pedir-lhe que me passe o seu extrato judiciário por debaixo da porta? Falará ele uma das línguas que conheço? Reconhecerei a minha cor de pele? Estará ele com os seus impostos em dia? Terá nascido na mesma cidade em que eu nasci? Ou será melhor ignorá-lo, já que, afinal, ele estará interrompendo um momento de fraternidade – em família?

Coragem, André.

Neste dia 24, enquanto meu filho estiver brincando, sua prima estiver lendo nomes e meu sogro estiver sorrindo, eu estarei lá, mais uma vez, à espera que este Natal seja, também para mim, um dos melhores.

Feliz Natal!